sexta-feira, 13 de maio de 2016

Corpo

A claridade que passava pelas janelas era excessiva. A luz, onda e partícula, era parte do todo, entretanto era muito escuro naquele lugar. Se algo se movia era apenas em relação ao que pairava num dos cantos escuros do cômodo. Que vazio! Sinto que todos os seres viventes estão aqui. Há algo relacionado a isso que eu sei que não deveria esquecer. Não poderia. O processo todo era permeado de excessos. Percebia-se a garganta a arder, a pele irritada, os joelhos eram uma lástima. Impressionava que houvesse, ainda, resiliência para outra tentativa, que, como de costume, não seria a última. Doem. Minhas têmporas doem, se agora houver falha sinto que tudo que acabou de me machucar terá sido um vão. É por meio de um som, entre os poucos que lá são permitidos, que soube que deveria tornar ao início. Eu abro meus braços, dou voz ao não dito, sinto caminhar ao longo da minha própria pele. Líquida. Tornei tenro o movimento último. De fora vê-se que o erro anterior agora era acerto. Suspensão. Ruídos irrompem e violentam a mudez outrora impassível daquele lugar. Eu paro para perceber que havia mais dor, mas agora era o fim. Estava a lente direcionada ao corpo, que fluía de si para as pupilas que o devoravam.

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