quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Considerações sobre Fogo Morto, de José Lins.

Três pilares de contenção do cosmos que compreendia a decadência do engenho, respectivos José Amaro, Lula de Holanda e Capitão Vitorino; três simulacros de potências constantemente atacadas por suas reações proporcionais.

Adendo meso-inserido: espero esquecer alguns nomes e alguns lugares da obra, uma vez que, quem sabe por preguiça ou, como desejo, pela busca por espontaneidade, não é do meu gosto o retorno à obra uma vez que a leitura é concluída. Deleito-me com a recém-formada primeira impressão de uma obra como Fogo Morto. Deleito-me com o desprazer de não ter ido até José Lins antes. Penso que isso é normal, queria eu desfazer de uma vez a ignorância de tudo o que é revelador na arte. Acostumo-me à decepções que se contrapõem à catarse de ter concluído algo tão sutil e esclarecedor como me parecem alguns escritos. 

Forma-se essa tríade em derredor e como justificativa da estrutura da obra. Inicia-se naquela impressão de meio, lembra-se o leitor que o início é limitante demais para que se comece nele. José Amaro tem em si aqueles outros e todos o tem em si mesmos, também. Lê-se nele o precoce reconhecimento do fim em meio à sua percepção deturpada de como se apresenta o seu espaço. A personagem, como as outras, socializadas para o patriarcado enquanto patriarcado, sustenta sua imagem no mundo com o frágil véu de orgulho e self-making. Não lhe é possível nem permissível que necessite de auxílio, fez sempre sua lida por conta própria, marca sua casa, que o acolhe, com o cheiro do couro das selas que produz. José Amaro compartilha sua existência de casa com Sinhá, sua esposa, e sua filha, Marta, depositárias e suportes de suas frustrações e de seus desejos. 

A tríade maior da obra tem em cada um de seus pontos tríades menores, compostas pelo ideal familiar do tempo, como lemos em Freyre e em Darcy Ribeiro. Há o patriarca, a esposa e a filha. As mulheres tem, aqui, em si as expectativas nelas depositadas pelo mundo patriarcal e as consequências disso. Enquanto a figura do ser-homem se constrói de modo a buscar a exteriorização de suas vontades a figura do ser-mulher é construída de modo passivo, não lhes é permitido que vivam à frente do homem. Seu lugar é bastante próprio, mas nunca de si, senão do homem. A loucura é um elemento naturalizado pelo narrador. Não se dá importância para o ser-louco de Marta, nem das demais personagens mulheres atingidas pela loucura ao longo da obra, senão enquanto problema do ser-homem. Em Marta a loucura é delimitada pelo não cumprimento de suas funções enquanto engrenagem da máquina social. Seu tempo surge na obra como caractere tardio, já em seus trinta anos de idade. O leitor atento vai ser capaz de perceber que o tardio da personagem é apenas associado ao seu estado psíquico pelo seu pai, o ser-homem, elemento estrutural deste primeiro pilar da obra. A loucura a qual Marta está sujeita lhe é um estado quase intrínseco, que depende apenas do olhar do pai para ser diagnosticada e tratada. Marta apenas é ativa enquanto voz desconexa de sentido, acrescentando à narrativa sons e linhas desconexas que são, nesta primeira parte, em que o pai é agente dos acontecimentos familiares, tratados com surras e confinados ao espaço de um cômodo da casa, descrita como suja e permeada pelo odor do couro de selas. Lê-se a relação entre ficção e realidade quando percebe-se que o ser-mulher é naturalizado como louco ou com tendência à loucura e o olhar crítico suplica em empatia: a psique humana de qualquer forma suportaria tamanho peso de existir condicionado ao outro enquanto escravo daquele e de sua condição? 

Vê-se que a presente análise não se pretende formal e acadêmica, a.k.a morta e em decomposição.

Enquanto Marta como filha desce ao purgatório da loucura e da histeria e jamais é purgada, a figura de sua mãe, Sinhá, partilha do mesmo espaço que ela, mulher, porém, Sinhá é mulher feita, narrada enquanto alguém que sofre nunca seus feitos, senão os feitos de José Amaro. Enquanto a humanidade das mulheres da obra está condicionada ao cumprimento de sua função social, José Amaro torna-se lobisomem. Não por tornar-se lobisomem, mas por questionar sua humanidade, ao aproximar-se do fim, que toma em suas mãos, já estranha os traços de seu rosto grande e sujo e de suas mãos grossas e que limitam sua existência à lida do fazer selas. O que inicia-se enquanto ódio por conta dos boatos torna-se obsessão e reafirmação de sua humanidade, que encontra-se perdida na miséria de sua condição e, ao não encontrar vazão, delonga-se em fluxos de pensamento nos quais José Amaro questiona sua própria forma e, em andanças noturnas em meio ao vilarejo de Pilar, reforça a imagem de não-humano produzida. 

Há algo, entretanto, que José Amaro prezava, um tipo de transgressão que permanece num entre-lugar entre o querer e o contemplar. O grupo de cangaceiros liderado pelo capitão Antônio Silvino e seus feitos atraem a atenção do mestre Amaro. Jamais a personagem exterioriza verbalmente ou em forma de diálogo a admiração pela figura do líder do cangaço. Isso se faz no cumprimento de desígnios materiais, quando produz acessórios para o grupo e adquire produtos necessários à sobrevivência daqueles. Na busca infrutífera por se afirmar enquanto ser naquele mundo de senhores em que ele não era um senhor, a personagem de José Amaro transfere de si para Antônio Silvino a responsabilidade de seu fazer humano, quando ser humano está limitado à imposição de sua vontade sobre a vontade dos senhores. 

Em suma, esse primeiro pilar da obra não tem início e passa seu tempo em desacordo com o atual estado de coisas, porém, passa-se no presente decadente e com humanidade questionável. O foco central desta primeira parte tem em José Amaro o simulacro onde deposita essa estrutura, não por acaso.

O segundo pilar da obra é Lula de Holanda. Também não por acaso aqui temos um início pré-estabelecido e que serve de base a toda concepção de existência e de devir sobre a qual trabalha a personagem em questão. Lula de Holanda tem sua história detalhada em uma longa analepse que se inicia com a história do engenho de Santa Fé e a descrição do pai de sua esposa, Dona Amélia. A descrição é feita a partir da perspectiva de seu sogro, antes mesmo de Lula entrar na narrativa. O engenho, em suma, era próspero, longe da decadência sobre qual toda a obra é estruturada. Lula de Holanda é instruído e vem da cidade carregando em si marcas do passado não seu, mas de sua família, reconhecidamente revolucionária, tendo morrido como tal. A partir disso a personagem intriga o pai de sua noiva, Tomás, dono do engenho, que vê naquele um ser que não vivia seu presente, não por acaso em meio à essa mencionada analepse, mas que apenas se preocupava com sua introspecção e seus jornais. Discutia política e possuía um natural espírito para conseguir o que objetivava. Em síntese Lula de Holanda torna-se senhor daquele engenho e, em meio a seu domínio ocorre a abolição da escravatura e, sendo cruel com seus escravos, é rejeitado após tal acontecimento, de modo distinto do que aconteceu com outros engenhos, que tinham a simpatia de seus recém-libertos escravos (ressalvas aqui). Nesta segunda parte da obra o passado torna-se presente em meio a conflitos e dessa forma continua até se findar. Lula de Holanda tem em Dona Amélia sua esposa, e em Neném sua filha, em quem deposita agora o que antes era de Dona Amélia, sua afeição não divida e que visava apenas seu bom estado de coisas. Neném, assim como Marta, é descrita apenas de acordo com a vivência de seu pai, o coronel e senhor de engenho Lula de Holanda. Lula ainda tem uma cunhada que existe apenas no interior de seu quarto e tudo o que diz remete aos tempos passados, em que seu pai ali vivia, não por acaso tudo o que afirma é dito como ataque ao seu pai, agente implícito de sua loucura.

A terceira parte tem como seu protagonista o capitão Vitorino, personagem que tendia à constante ação e à proteção daqueles que eram oprimidos. Não por acaso é nesta parte que toda a ação da obra ocorre. O engenho de Lula de Holanda é atacado, o capitão Antônio Silvino invade a residência do senhor de engenho e busca de suas riquezas e José Amaro e outras personagens que apenas entre si simpatizavam com a causa do cangaceiro são presas, torturadas e, de algumas partes tem suas vidas findadas de uma ou outra maneira. Vitorino é conhecido por sua ação e a terceira e última parte da obra deposita na personagem seu devir. Vitorino é marido de Dona Adriana e o que apresenta comportamento mais orgulhoso entre os protagonistas supracitados. Aqui, também, a personagem mulher tem sua existência condicionada à ação de seu marido e por ele é constantemente lembrada de seu papel passivo. A obra finda com a declaração de que o fogo está morto, o fogo do engenho com o aparecimento da usina de açucar; o fogo da humanidade do sujeito do engenho; em suma, fogo morto.