segunda-feira, 4 de outubro de 2010

É o fim

Saí de casa em uma manhã como qualquer outra para ir até a mercearia comprar o pão e o café com que começaria meu dia, que tinha que ser um bom dia. Entrei no local e logo vi que o atendente não tinha começado bem o dele. Tinha os olhos inchados, provavelmente de tanto chorar, e uma expressão daquelas que você não consegue conter quando não está bem. Peguei as minhas coisas e me dirigi a ele para pagar e ir embora. Era um cara com seus vinte e poucos anos, com barba por fazer e olhos cansados.

- Olá, quero um maço de cigarros também, por favor.
- Certo.
- Você não está bem, não é?

Um daquelas perguntas cotidianas que às vezes realmente não devem ser feitas. Mas o "conhecia" há tempos, o que não justifica tamanha intromissão na tristeza alheia, mas conforta. Eu morava havia anos no mesmo lugar e sempre frequentava aquela mercearia, que o tinha como atendente há vários anos também. Então não pude esconder a preocupação egoísta que não passava de mera curiosidade. Qualquer diálogo entre nós jamais havia passado do convencional entre atendente e cliente. Mas havia aquela intimidade que há quando nos acostumamos com a presença de alguém.

- Se eu estou bem? Não sei mais. Normalmente diria que sim, mas não consigo mais acordar e fingir que tudo está bem, e nem responder que sim.
- Mas a vida é assim, dias bons, dias ruins, logo você estará bem de novo, certo?
- Não sei também, não quero mais que os bons tempos passem, que as pessoas que entram na minha vida saiam como estranhos depois de terem feito tanta diferença. Gostaria de estar satisfeito com a vida que levo, mas não, nunca fui satisfeito. Sempre quis mais.

Eu já esperava essa resposta. E nesse momento não me arrependi de ter perguntado. Tantos anos vendo aquela pessoa e jamais ter me aproximado o suficiente pra ver que no fundo éramos tão iguais. Ao menos parecia. Após a resposta seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele resistia. No fundo ele ouvia uma música que deixou tocando no computador da mercearia, era alguma daquelas que ouvimos quando não estamos bem, que atenua nossa tristeza. E dá um conforto bom como se sentíssemos que mais alguém compartilha nosso sentimento. Não identifiquei qual era, estava muito baixo, mas parecia alguma dessas odes modernas à solidão.

- Eu entendo, também nunca fui muito satisfeito com a minha vida. Mas acho que é normal, deveríamos ser gratos por isso. Afinal, se nossos ancestrais tivessem se acomodado e largado mão de suas insatisfações, provavelmente nós não estaríamos aqui conversando, a espécie humana estaria extinta e não teríamos com o que nos preocupar, se não existíssemos... o problema de hoje é querer 'felicidade plena'. A vida teoricamente bem vivida é feita disso, momentos bons. Na maioria do tempo estamos preocupados com nossa falta de dinheiro, de saúde, de qualquer coisa. Mas queremos desesperadamente ser felizes. Isso é um erro, dos grandes. Enfim...
- É... o ruim é que concordo com você. Mas isso não me tira desse buraco em que estou.

Após acabar de falar acho que minhas palavras não foram nada mais que um momento de auto-afirmação, egoísmo imaturo. O cara ali, mal, e eu cuspindo verdades que ele nunca sequer cogitou que eu falasse. E palavras não voltam. Eu queria ajudá-lo, mal sei o porquê, mas queria. Acho que pra eu me sentir melhor como fui condicionado a fazer. Ou apenas para conhecer alguém com os mesmos desesperos que eu. Só mais tarde perceberia que a verdade não ajuda ninguém.

- Não. Mas se você se acalmar e pensar direito vai ver que já que está vivo não vale a pena ficar sofrendo assim, por coisas tão daqui, me entende?
- Entendo, sim. E acha que já não pensei desse jeito? A vida sempre foi tempos bons e tempos ruins, mas ultimamente os bons já não são tão bons, e os ruins são piores do que antes. Mas o que me incomoda mesmo nisso tudo são as pessoas que saem da nossa vida depois de terem sido tão importantes, cansei disso. Não sei nem por quê estou aqui me abrindo pra você, que mal conheço.
- No fundo conhece sim, sou o mesmo que vinha aqui há anos, não mudei muito, não. Ninguém muda muito afinal. Enfim, preciso ir, espero que fique bem, até mais.
- Me desculpe, até.

E assim segui meu dia normal, pensando nos problemas, em algo pra passar o tempo. Li um livro, assisti um filme, fumei um cigarro, pensei e pensei, lembrei da conversa que tive há pouco. Foi uma daquelas que significam algo, tive até um sonho com isso, mas no dia seguinte esqueci.
Na semana seguinte olhei o jornal na terça-feira pela manhã, antes de passar na mercearia começar o dia e quem sabe ter outra daquela conversa que me interessou. Era um jornal local, pequeno e cheio de defeitos, e o maior deles estava na primeira página, em um canto pequeno e quase imperceptível, daqueles que quase ninguém lê mas que eu gosto de bisbilhotar, uma mania estranha. Aparecia escrito no título "Homem de vinte e sete anos é encontrado morto após cair do sétimo andar." Essas notícias sempre mexem com nosso lado humano, por mais que sejam esquecidas horas depois, mais um que se vai. Seguindo a 'mini-reportagem' vi que o indivíduo tinha se jogado de lá após deixar um bilhete para o amigo com quem morava, em despedida: "Obrigado pela presença." Achei tão simplista, imaginei que se um dia me suicidasse iria escrever algo significativo, para que lembrassem de mim, por mais que no fundo eu zombasse da própria ideia de tão ridícula que, de fato, era.

O que eu não esperava enquanto lia isso era que no final descobrisse que o jovem suicida era o cara pacífico que trabalhava na mercearia e tinha aqueles olhos cansados. Meu dia se acabou com um espasmo seco da garganta, naquele choro reprimido por aquele que eu não conheci e que agora tinha ido embora, quem sabe se eu tivesse olhado para aqueles olhos um dia antes. Quem sabe, afinal? Calei minha mente, larguei o jornal e acendi um cigarro, e a tristeza me acompanhou no fim, do meu quinto andar até o chão, sem que o ar me sustentasse em compaixão, pela minha impulsão e minha falta, e é o fim. Mas não o meu, eu estou aqui parado, hipotetizando, já que posso sentir, vou continuar sentindo. Enquanto consigo suportar, que a dor me dilacere.

2 comentários:

jéssica disse...

é uns desistem, outros seguem a mesma merda, bom texto, gostei do final. :)

Mademoiselle B. disse...

Há pessoas que se escondem atrás de difarces de pessoas comuns, e por dentro morrem... pouco a pouco!
O pior sofrimento não é a angústia nem a dor, é a ausência..."Estás ausente da dor, tudo é branco."(Caio F. Abreu)