segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Registro de um tempo bom.

Desde a última segunda-feira eu tenho sido atingido por uma daquelas coisas da vida que te fazem querer mudar tudo que tá errado, em si mesmo. E aqui estou eu, bem humorado em plena segunda-feira, com alguma expectativa e mais realismo que nunca na vida.

Esse vai ser um daqueles posts que poderiam ser escritos em um diário, um daqueles raros que chegam nos momentos bons da vida, diferente da maioria, que é inspirada por momentos nem tão bons assim. Enfim, há uma semana que eu resolvi mudar, de novo. Não que eu tenha mudado de fato, ainda sou aquele, mas como disse Nietzsche "O início da mudança se faz com fingimento, é necessário vontade de mudar e insistência em ser algo que não se é." Não com essas exatas palavras, mas o sentido é esse. E eu estou aqui, depois de mais um dia de aula para uma sétima série que não dá a mínima para o esforço de um professor (ou estagiário, como é meu caso) que planeja uma aula para tornar um bando de crianças filhas de uma geração decadente e ignorante que provavelmente nunca serão nada na vida, algo mais que um traficante ou adorador de ignorância.

Isso começou há uma semana e alguns dias, na primeira dessas aulas que preciso dar por conta de uma matéria do meu curso (Letras Port/Ing), quando eu não consegui almoçar de tanta ansiedade e pessimismo que tomou conta de mim. E antes disso tudo, perdi cinco kilos em um mês por toda essa ansiedade ridícula.

Nesse dia a aula foi horrível, me deixei levar pelo comportamento péssimo dos tais alunos e o mau humor era como um altar que eu criava para descansar depois dos meus dias nem tão bons. Acordei no dia seguinte, olhei para o espelho, para aquele rosto cheio de barba e com cabelos cacheados escorrendo pela testa, no fundo desses olhos dados pelos meus tão amados pais, e vi lá no interior disso tudo a vida vazia que isso tudo é. A vida que um dia vai se acabar em nada, eliminando todo sentimentalismo que criei nesses vinte e um anos de humanidade. Pensei em como tudo que sinto não vai servir de nada para ninguém, a não ser para mim e resolvi que minha sobrancelha só iria franzir a si mesma para evitar excesso de luz em dias demasiado claros.

Pronto, mas não foi como qualquer frase do tipo: "Bá, preciso parar de fumar", "Juro que vou ser mais pontual" ou "Semana que vem vou voltar a correr." Não, não. Foi algo que não pode ser tornado verbo, aquilo que você sente de verdade no seu íntimo que vem como um murro no meio do seu rostinho jovem e egoísta, dizendo chega desse você, hora de viver diferente porque você vai se acabar em nada mesmo.

E cá estou, escrevendo tudo isso, o resumo de uma semana bem vivida, que se eternize até que acabe. Enquanto minha gata (animal mesmo) dorme aqui do lado com um ar de: "Faço o que eu quero, na hora que quero, e te arranho se não curtir, babaca.", ouvindo Radiohead, pensando nas coisas do coração e me sentindo bem, muito bem.

Então que se faça eterno até que acabe, que a vida seja bela e o bom humor não me largue mais.

Não, não estou exagerando, ainda sentirei muita tristeza e dor nessa vida, agora registro um momento ótimo, que um dia será interrompido por uma dor que guardarei para mim, talvez expressarei em uma música ou em um poema novo, mas sendo eu mesmo, como tem que ser. E que toda dor sirva para os momentos bons serem mais bem vividos. Que seja como queremos.

P.S.: O mundo precisa de mais pessoas simpáticas, e não confunda simpatia com falsidade, não.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Est

Já não há porquê se prender,
escolher entre o sim e o não,
saber a diferença entre o que
sabemos e escolhemos aqui,
ignorância que já não há, junto
com a ideia que esquecemos
ao vento, ao relento, ao vento

Cada palavra é tão inútil quanto
a vida que te foges sem que tu
rabisque as folhas que te faltam,
outro amor que se envaidece ao
lado do orgulho que se destrói
indo em direção ao desprezo que
nunca deixou seguir, e nunca quis
existir para alguém além de si

Dor de uma vida em vão
espera de cada um que é

Lume que queima sem querer
imagem de todo carinho bom
me mostra o que te faz e o que
amas além do que vês daqui

Como fugir daquilo que dói
isso de criar não é tão fácil
rastros de você ainda aqui
imóveis como o olho que vê
cabe a ti saber ou ser amor
ou ficar ao vento, em espera

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pathos

Me carrega, tristeza, pra longe daqui
até o alto daquele clarão
só pra eu ver uma última vez
o que ficou pra trás

Não me atendes, tristeza
me deixa ficar assim sem querer tanto isso tudo perto
me deixa pensar certo e sentir as linhas que se alongam
mas se não me levas, tristeza, pra onde eu vou olhar?
Para de ser cruel e me despe das tuas ânsias

Eu só queria ficar aqui com o meu coração
em paz de emoções e temores, sem querer saber de ti
Vai tristeza, e leva embora tuas roupas sujas de mim
Vá de um vez antes que eu não suporte mais viver assim
Sem ti em mim.

É o fim

Saí de casa em uma manhã como qualquer outra para ir até a mercearia comprar o pão e o café com que começaria meu dia, que tinha que ser um bom dia. Entrei no local e logo vi que o atendente não tinha começado bem o dele. Tinha os olhos inchados, provavelmente de tanto chorar, e uma expressão daquelas que você não consegue conter quando não está bem. Peguei as minhas coisas e me dirigi a ele para pagar e ir embora. Era um cara com seus vinte e poucos anos, com barba por fazer e olhos cansados.

- Olá, quero um maço de cigarros também, por favor.
- Certo.
- Você não está bem, não é?

Um daquelas perguntas cotidianas que às vezes realmente não devem ser feitas. Mas o "conhecia" há tempos, o que não justifica tamanha intromissão na tristeza alheia, mas conforta. Eu morava havia anos no mesmo lugar e sempre frequentava aquela mercearia, que o tinha como atendente há vários anos também. Então não pude esconder a preocupação egoísta que não passava de mera curiosidade. Qualquer diálogo entre nós jamais havia passado do convencional entre atendente e cliente. Mas havia aquela intimidade que há quando nos acostumamos com a presença de alguém.

- Se eu estou bem? Não sei mais. Normalmente diria que sim, mas não consigo mais acordar e fingir que tudo está bem, e nem responder que sim.
- Mas a vida é assim, dias bons, dias ruins, logo você estará bem de novo, certo?
- Não sei também, não quero mais que os bons tempos passem, que as pessoas que entram na minha vida saiam como estranhos depois de terem feito tanta diferença. Gostaria de estar satisfeito com a vida que levo, mas não, nunca fui satisfeito. Sempre quis mais.

Eu já esperava essa resposta. E nesse momento não me arrependi de ter perguntado. Tantos anos vendo aquela pessoa e jamais ter me aproximado o suficiente pra ver que no fundo éramos tão iguais. Ao menos parecia. Após a resposta seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele resistia. No fundo ele ouvia uma música que deixou tocando no computador da mercearia, era alguma daquelas que ouvimos quando não estamos bem, que atenua nossa tristeza. E dá um conforto bom como se sentíssemos que mais alguém compartilha nosso sentimento. Não identifiquei qual era, estava muito baixo, mas parecia alguma dessas odes modernas à solidão.

- Eu entendo, também nunca fui muito satisfeito com a minha vida. Mas acho que é normal, deveríamos ser gratos por isso. Afinal, se nossos ancestrais tivessem se acomodado e largado mão de suas insatisfações, provavelmente nós não estaríamos aqui conversando, a espécie humana estaria extinta e não teríamos com o que nos preocupar, se não existíssemos... o problema de hoje é querer 'felicidade plena'. A vida teoricamente bem vivida é feita disso, momentos bons. Na maioria do tempo estamos preocupados com nossa falta de dinheiro, de saúde, de qualquer coisa. Mas queremos desesperadamente ser felizes. Isso é um erro, dos grandes. Enfim...
- É... o ruim é que concordo com você. Mas isso não me tira desse buraco em que estou.

Após acabar de falar acho que minhas palavras não foram nada mais que um momento de auto-afirmação, egoísmo imaturo. O cara ali, mal, e eu cuspindo verdades que ele nunca sequer cogitou que eu falasse. E palavras não voltam. Eu queria ajudá-lo, mal sei o porquê, mas queria. Acho que pra eu me sentir melhor como fui condicionado a fazer. Ou apenas para conhecer alguém com os mesmos desesperos que eu. Só mais tarde perceberia que a verdade não ajuda ninguém.

- Não. Mas se você se acalmar e pensar direito vai ver que já que está vivo não vale a pena ficar sofrendo assim, por coisas tão daqui, me entende?
- Entendo, sim. E acha que já não pensei desse jeito? A vida sempre foi tempos bons e tempos ruins, mas ultimamente os bons já não são tão bons, e os ruins são piores do que antes. Mas o que me incomoda mesmo nisso tudo são as pessoas que saem da nossa vida depois de terem sido tão importantes, cansei disso. Não sei nem por quê estou aqui me abrindo pra você, que mal conheço.
- No fundo conhece sim, sou o mesmo que vinha aqui há anos, não mudei muito, não. Ninguém muda muito afinal. Enfim, preciso ir, espero que fique bem, até mais.
- Me desculpe, até.

E assim segui meu dia normal, pensando nos problemas, em algo pra passar o tempo. Li um livro, assisti um filme, fumei um cigarro, pensei e pensei, lembrei da conversa que tive há pouco. Foi uma daquelas que significam algo, tive até um sonho com isso, mas no dia seguinte esqueci.
Na semana seguinte olhei o jornal na terça-feira pela manhã, antes de passar na mercearia começar o dia e quem sabe ter outra daquela conversa que me interessou. Era um jornal local, pequeno e cheio de defeitos, e o maior deles estava na primeira página, em um canto pequeno e quase imperceptível, daqueles que quase ninguém lê mas que eu gosto de bisbilhotar, uma mania estranha. Aparecia escrito no título "Homem de vinte e sete anos é encontrado morto após cair do sétimo andar." Essas notícias sempre mexem com nosso lado humano, por mais que sejam esquecidas horas depois, mais um que se vai. Seguindo a 'mini-reportagem' vi que o indivíduo tinha se jogado de lá após deixar um bilhete para o amigo com quem morava, em despedida: "Obrigado pela presença." Achei tão simplista, imaginei que se um dia me suicidasse iria escrever algo significativo, para que lembrassem de mim, por mais que no fundo eu zombasse da própria ideia de tão ridícula que, de fato, era.

O que eu não esperava enquanto lia isso era que no final descobrisse que o jovem suicida era o cara pacífico que trabalhava na mercearia e tinha aqueles olhos cansados. Meu dia se acabou com um espasmo seco da garganta, naquele choro reprimido por aquele que eu não conheci e que agora tinha ido embora, quem sabe se eu tivesse olhado para aqueles olhos um dia antes. Quem sabe, afinal? Calei minha mente, larguei o jornal e acendi um cigarro, e a tristeza me acompanhou no fim, do meu quinto andar até o chão, sem que o ar me sustentasse em compaixão, pela minha impulsão e minha falta, e é o fim. Mas não o meu, eu estou aqui parado, hipotetizando, já que posso sentir, vou continuar sentindo. Enquanto consigo suportar, que a dor me dilacere.

Logos

Canto para um canto onde o manto
que me cobre desaba e me expõe
Tanto guardo a inocência que chora
a falta de um apego desacreditado

Não é saber o tanto que pranteei
pela dor do meu egoísmo
de só querer os carinhos mudos
de quem sente o mesmo nada que eu

Quem vê palavra em palavra
quem vive aqui e não conhece depois
me esconde dessa mania de doer
acaba com meu orgulho de viver