domingo, 29 de agosto de 2010

Diálogo - 2

- Bom dia.
- Bom dia por que?
- Porque sim, não discute.
- Ontem eu tive um sonho estranho.
- Me conta.
- Sonhei que a vida era indiferente. E que eu nadava em um mar em que eu não saia do lugar.
- Não sei o que significa isso.
- Mas não foi a primeira vez. E é isso mesmo, na vida nadamos e nadamos e nunca saímos do lugar. Até se cansar e afundar. E cada vez que eu sonho com isso é mais difícil ficar na superfície.
- Você precisa é de ajuda.
- Acho que sim, mas não ia mudar nada. Cada vez que sonho me afundo mais. E ontem derramei a primeira lágrima pela vida. Outras vezes eu até tentava, mas acabava desistindo quando parecia que saia do lugar. Mas quando parava, ainda tava lá, no meio daquele mar enorme, parado. Acho que na próxima vez só afundo e acabou, sempre foi fácil assim.
- É fácil, mas é só um sonho também.
- É, mas fica mais real quanto mais sonho com isso. Às vezes realmente acho que saí do lugar, mas nado, nado, e nada. Por mais que olhe pra como isso é, e às vezes me sinta até feliz.
- Realmente acho que precisa de ajuda.
- Vou acabar indo atrás de ajuda. E esquecendo do mar em que me afundo, não sonhando mais com isso. Mas não vou esquecer daquela lágrima de desespero que saiu dos meus olhos quando achei que não tinha mais volta, aí vou continuar nadando, tem tanto mar pela frente ainda, afinal.
- Mas no fundo você sabe que não vai chegar em lugar nenhum.
-...
-...
- E sabe, nessa última vez eu me esforcei como nunca, nunca antes. Mas no final, acabei afundando mais do que nunca, e tô aqui, sem motivo pra te dar bom dia.
- Sem bom dia então.
- Sem bom dia, até mais.
- Até.

sábado, 28 de agosto de 2010

Diálogo

- Olha aquele cara sentado ali naquela mesa no canto, sozinho.
- O que tem ele?
- Não sei, já vi aquela expressão em algum lugar.
- O que te parece?
- Segurança e medo, é estranho. O jeito com que ele olha tudo em volta.
- Também achei isso. Enche meu copo aqui.
- Tá, mas é mais do que isso. Olha pra você sentado aí, com esse olhar de quem precisa de alguma coisa.
- É, preciso que você encha meu copo, a garrafa tá longe de mim.
- A garrafa? Tem muita coisa longe de você que me faz achar isso.
- O que você tem hoje? Normalmente só fala de mulher, música ou outra coisa qualquer. Pára com isso, hoje é sábado e vim pro bar pra não pensar em nada.
- Hoje? Hoje eu acordei diferente, não sei. Com uma vontade que não tô conseguindo conter.
- Vontade de que?
- Vontade de vontade, só.
- ...
- O que foi? Só acordei querendo fazer alguma coisa a mais que normalmente.
- Isso passa.
- Passa? Então quando você tem vontade só fica esperando passar?
- Ah, não sei. Já disse que vim pra cá pra não pensar. Quando sinto essas vontades venho pro bar e bebo até saber que morrerei de dor de cabeça no dia seguinte. Pronto.
- Você não muda mesmo. Viver desse jeito quando poderia fazer qualquer coisa se soubesse colocar a vontade no lugar certo.
- É, eu não mudo mas nunca vou me decepcionar por não ter feito o que queria fazer. Não quero, afinal.
- Eu quero. Aquele cara ainda tá com aquela cara de segurança desesperada.
- E quem não quer? Todo mundo quer, desde cedo quer, cresce querendo e morre querendo ainda mais, pensando em uma segunda chance. Ó, para de me fazer pensar, minha cabeça só é pra doer amanhã.
- Acha isso?
- Acho, e achar o contrário não ia fazer ser diferente.
- E toda aquela coisa de otimismo de que sempre fala?
- Ah, sabe como é, temos que passar uma boa impressão pra acharem que iremos 'vencer na vida'. A cada dia isso soa mais engraçado. Mas agora tô aqui, com você que é meu amigo e pra quem eu posso falar a verdade sem me preocupar com sua reação.
- É, no fundo eu sei que vai falar tudo isso. Mas às vezes você vem com esse 'otimismo' inconsequente que me confunde.
- Mas é o que te disse. Precisamos disso pra fingir pra esse mundo que continua fingindo e cria pessoas que fingem e que nunca vão mudar porra nenhuma.
- A verdade.
- É, a verdade. Essa desgraçada que não respeita nada.
- Me faz rir. Mas concordo contigo, mas o importante é querer mudar, né?
- Por que me pergunta? Mania de querer confirmação, você não era assim até ontem.
- Mas é que foi hoje que eu acordei com vontade.
- E quando você tá sem vontade?
- Aí eu não penso. Venho pro bar e falo de mulher e música.
- É, e assim vamos. Com vontade, sem vontade. Até o dia em que resolvermos não viver mais. Ou a vida resolver nos largar no meio de uma rua, no meio de um livro ou de uma música.
- De fato.
- Pede a conta, vamos embora. Não tô querendo dor de cabeça amanhã.
- Idem, e o cara com a segurança e o medo ainda tá lá. Com aquela cara de quem nunca teve vontade e de quem ficaria horas ali sentado esperando a vida passar.
- É, mas vamos enquanto ainda temos dias com essas vontades.
- Isso. Ei você, a conta por favor, que estamos de saída.

E os dias se passaram sem qualquer nova escolha, mas cheios de vontade.

Já não tem problema, não

...já não tem problema. Qualquer coisa eu me acabo num lugar qualquer, com gente qualquer e prazeres quaisquer. Só não dá mais pra querer demais, assim. Isso de querer é pra quem se apega pouco, ama de menos. Eu sou um cara qualquer que resolveu parar pra pensar. Agora me apóio na minha janela enquanto fumo esse cigarro e quero saber o que vai ser do amanhã. Mas não, já não tem problema, é tanta coisa que é fácil largar isso e partir pra outra, não me apego a nada mesmo. Por mais que queira de uma maneira impossível. Não dá, não fui criado pra isso. Tô aqui de passagem, pensando nesse monte de clichê nessa linguagem que não tem nada de literatura. Fico por aí, sozinho, esperando pra trazer alguma coisa de boa pra esse mundo que se arrasta. Só quero um "caminho, um motivo, um lugar", uma música que seja boa, uma pessoa atoa e um monte de conversa pra jogar fora e não deixar saudade. "Adeus você, hoje vou pro lado de lá, tô levando tudo de mim, que é pra não ter razão pra chorar". E quero uma música assim, que não fique disfarçando tristeza, querendo ser feliz. Quero palavras que lamentem, que saibam celebrar o que a vida tem de verdade e não queiram inventar mais complicações pra gente correr atrás. É, já não há mais problema mesmo, vou é me fechar no meu mundo e adotar mais algum vício que me mate devagar. Quem sabe procurar algum lugar pra exercitar minha humanidade, onde eu faça mais do que queira e pare de complicar isso tudo. Chega disso, já não tem problema. "Quem se atreve a me dizer", pra onde leva a vida? Não, não, não, pára com isso, senta aí, pega um copo e vamos falar da vida.

sábado, 14 de agosto de 2010

Fotografia

Em um belo dia azul me deparei com uma velha fotografia da infância, em um álbum daqueles que é esquecido no canto de um armário e só é tirado para ser mostrado à visitas quando não se tem mais nada a dizer. Uma velha e nostálgica fotografia de um ser humano frágil e ingênuo, que continha em si toda a felicidade do mundo. Era eu em uma bicicleta que já não habitava minhas memórias, um objeto que provavelmente foi passatempo de muitas tardes despreocupadas, em que nada era mais importante que alguns momentos de felicidade sem culpa.

Naquela foto eu tinha um sorriso sincero no rosto, olhos brilhantes e felizes como toda criança deve ter. Era um cenário verde com minha casa ao fundo e minha mãe sentada em uma cadeira me observando, como era sempre. Minha amada mãe. E meu querido pai registrando aquele momento, que para sempre vai ser um sinal do que fui e do sou destinado a ser.

Me impressiona o quanto uma simples imagem pode se transformar em nostalgia. Aquele sentimento que você não sabe se é bom ou ruim. Tem um pouco de alegria e outro tanto de tristeza. Alegria por ver que a vida se fez boa, ainda mais quando não continha vícios incontroláveis, sentimentos compulsivos e desejos irrealizáveis. Tristeza por ser um tempo que não volta mais, e por despertar em mim todas as qualidades que se foram. O tempo que passa cada vez mais depressa, escapando por entre meus dedos, zombando da minha incapacidade de obter controle. E não se trata de otimismo ou pessimismo. É apenas um realismo frio que torna a vida mais equilibrada. Pois poucas coisas são mais irritantes do que otimismo ou pessimismo exagerados. Ou não sair dos eternos clichês que fazem da vida essa melancolia.