segunda-feira, 1 de março de 2010

Análise do poema "Braços" de Cruz e Souza

Olá, como alguns dos que me conhecem sabem, sou um acadêmico do curso de Letras Port/Ing. da Unioeste de Cascavel no Paraná. Fiz o curso por ser um admirador da boa literatura e gostar de escrever, principalmente. No curso, entre outras coisas, nas matérias que envolvem literatura, analisamos alguns poemas; Braços, do simbolista Cruz e Souza foi o primeiro objeto de estudos em uma de nossas matérias no meu, atual, terceiro ano como acadêmico. Achei-o deveras interessante, e, como gostei da análise que fiz e acho que pode ser de alguma valia para alguém que se interesse pelo tema - ou para outro acadêmico em busca de ajuda para algo semelhante - resolvi publicar minha análise aqui, no blog.

Enfim, na sequência está o poema e a análise mencionada:

Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
que prendem, tetanizam como os herpes,
dos delírios na trêmula coorte ...

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas
abertos para o Amor e para a Morte!

Cruz e Souza


O presente poema é um dos mais conhecidos da obra de Cruz e Souza, e um dos mais característicos do movimento Simbolista brasileiro. Um soneto convencional, com métrica e rima características. Rimando no sistema ABBA nos quartetos, e CCD/EED nos tercetos; com acentuação variada nos seus decassílabos. Pretendo com esta breve dissertação, primeiramente analisar as características que fazem destes versos marcos do simbolismo para, em seguida, tentar desmistificar, no meu modo de interpretar – claro, com algumas limitações teóricas necessárias – a essência do poema; o que Souza quis nos dar a entender com seu ‘Braços’.
O autor, em toda sua habilidade semântica e sintática, insere todo o universo simbolista dentro deste poema, que, se visto com olhos desatentos e leigos pode não ter grande importância literária. Mas tamanha obviedade pode não ser despropositada. A linguagem acessível, porém ainda erudita, não sai dos moldes metafísicos e musicais de sua época simbolista, porém abrange muito mais do que palavras esteticamente bem desenvolvidas; nele, encontramos a visão dramática que o autor tinha da existência, e o dualismo que se está no fato de o poema começar com uma aparente idealização de “Braços” e se acabar com a conclusão de que estes são “abertos para o Amor e para a Morte!”, tendo aí as chamadas maiúsculas alegorizantes, que visam a personificação dos substantivos que tiveram suas iniciais transformadas de forma não sintaticamente convencional em maiúsculas; mas que tem significação importantíssima dentro do lirismo aí desenvolvido. Bem como os sinais de paixão que aparecem em forma de reticências em “dos delírios na trêmula coorte...” e no último verso “abertos para o Amor e para a Morte!” que são usados para representar, respectivamente, e possivelmente (ênfase aqui, apenas para não colocar minha interpretação em caráter absoluto), o deixar as possibilidades mais amplas para entendimento das definições apresentadas; e a excitação e angústia produzidas por seres – os “Braços” – que são “abertos para o Amor e para a Morte!” e que o sujeitam da forma descrita ao longo do poema.
Convencionalmente bem organizado, dotado de significação simbólica minuciosamente escolhida, ‘Braços’ é apresentado de forma a nos elevar ao nível metafísico de compreensão do mundo. O que, por si só, já impõe uma relativização significativa nos conceitos a serem afirmados através de análise. Inicialmente, pelo próprio título, somos inseridos em um tema pouco provável, mas (retomando o que já foi dito acima) com potencial para ser muito óbvio: “Braços”. Ao iniciar a leitura dos versos, somos logo atingidos pelo sentimento idealizado e belo que o autor propõe com tanta adjetivação e exaltação daquelas “Brancas opulências”. Suas “Brumais brancuras” já revelam a fixação de Souza pelo cromatismo, pela cor branca, especificamente.
Como não podemos desassociar o autor de sua obra, poderíamos ir além do óbvio e sugerir um possível complexo que o autor sofre. Cresceu em uma sociedade de fins do século XIX, onde o negro pobre – que era sua condição – não era bem visto pelo ‘resto’ da população. Isto pode ser ligado à sua fixação pela cor branca por ter sido visto como uma característica ideal para uma vida desenvolvida, como o era em toda a sociedade ao redor da qual cresceu e da qual, certamente, extraiu grande parte de sua essência; daí a ter se tornado objeto de exaltação é dedutível até pelo caráter trágico da existência que é relacionada à condição de ser negro na obra Broqueis, em que o poema em questão está inserido. Deduz-se isso, com uma análise da vida do autor, que, ao participar de um jornal da época, espalhava idéias abolicionistas. Como o objetivo deste texto não é o de analisar a obra e a vida do autor, fico por aqui em relação a isso. Apenas achei totalmente necessário deixar clara a possibilidade de interpretação que foi mencionada, por entender a associação vida/obra como fundamental em uma análise como a presente.
Os braços, enfatizadamente alvos, são objeto de um caráter dualístico que é uma das características que mais demonstram a essência do poema em questão. “Braços” amados, idealizados, mas capazes de sujeitar à tentação e ao cárcere aqueles que a eles se sujeitam. Nessa linha de raciocínio, o sentimento depreendido por essa confusão; o desejar exagerado denotado nos versos, nos remete ao êxtase absoluto, onde o autor guia nossa compreensão até o lado metafísico de sentir, o inapreensível que demonstra esse sentimento que mesmo intenso e, aparentemente não controlável, é o ápice do sentir, enfim, o êxtase.

Douglas William Machado