terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Filosofar com o vazio


A filosofia nos leva a lugar nenhum. O ato de filosofar, imparcial e verdadeiro não encontrará nada senão o vazio absoluto. O caos reinante de forma pura e bela, cruel e indiferente para nossos olhos por demais humanos. Não ser um indivíduo otimista não significa se voltar ao pessimismo e à melancolia deste, a imparcialidade nos leva ao real, à experiência que leva em conta a natureza em sua forma crua e caótica, com padrões despropositados aos quais sempre tentamos dar forma. Hoje é possível perceber que a essência é vazia e depende da existência, e não seria possível ver além. Toda e qualquer hipótese criada para explicar fenômenos além da esfera humana são palpites sem qualquer fundamento ou evidência, que se prostram sob justificativas que não são passíveis de comprovação e confundem mentes que anseiam respostas que jamais existirão.

Não falo de filósofos e teorias, apesar de ser impossível me desvincular destes e do meu histórico de influências, dada a importância que tiveram em minha existência, não para melhor ou pior, mas que me fizeram ver as tolices em que eu me encontrei uma vez imerso, que me faziam confortável e “feliz”, mas que nunca passaram de palpites e não valem a confiança de qualquer homem, mas sim, sua revolta justificada, por ser um limite do potencial do qual todos compartilhamos e podemos explorar ao máximo para criar a essência que nossa existência tornou possível.

“A existência precede a essência”, de fato, mas sempre se buscou sentido onde não há; dar sentido a vida deveria ser o mandamento principal, não busca-lo, pois ele não existe, a vida é vazia e o confronto com o real dói, uma dor quase insuportável com que se aprende a conviver, mas nunca se elimina; a dor testa o verdadeiro caráter, que se diz ‘forte’ ou ‘resistente’ mas estas são definições limitadas por demais para significar o ‘encontrar o vazio’, e conviver com este.

Tudo se formou por ciclos, nascemos vazios, somos moldados, e então nos re-moldamos, ou então seguimos os moldes com que crescemos e nos conformamos. Eu me moldo a cada momento, precisei quebrar os contornos que me faziam “eu” no início para questionar e conviver com o fato de que não há nada que eu possa fazer para confortar a dor da existência real e vazia. Mas aprendi a conviver com ela e hoje a amo; e como amo! Não saberia retornar ao estado primitivo em que me encontrava antes dela. Pessoas como eu “não são as mais confortáveis, mas são as que movem o mundo”, as que aprenderam a amar a eternidade e o questionamento, a abraçar a dor do vazio que vem como uma pancada no meio da cabeça, rachando-a e a fazendo sangrar até não restar uma única gota do sangue poluído pelo conformismo e pelo repugnante conforto encontrado na inverdade; ah, mas como sinto saudades daquele conforto, e como sinto raiva de mim por abrir mão dele; e ainda, sinto ódio de ter sido aquilo e de hoje sentir sua falta.

Odiamos as drogas que nos tornam dependentes (nem todos, falo pelos ‘fortes’) mas como somos dependentes da necessidade! Fugimos covardemente do tédio com o necessitar, nosso vícios não mais equilibram nossas virtudes. Ou somos puritanos demais e esquecemos dos prazeres; ou seres desvirtuados e desequilibrados que se acabam mental e fisicamente em meio a busca por saciar vontades imediatas.

Faço da vida a mais bela, estou vivendo meus melhores momentos, os mais breves que serão mais lembrados. Tenho os melhores amigos e me apego aos melhores vícios, insisto em absorver as melhores virtudes - por vezes falho - e tenho a melhor família. Amo as menores coisas como a mim mesmo, e sinto ódio daquilo que as prejudica. Não quero que minhas dores sejam suas e amo tudo que é belo - seja humano ou não - a grandeza do cosmos, minha incompreensão e tudo que é passível de contemplação; não preciso mais de motivos últimos para buscar prazeres e me apegar às coisas belas da vida. Dou à ela o sentido que me convém; amei a verdade e fiz dela meu principal vício, em sua ausência não há conclusão, e quando se faz presente, mesmo com dor, é a mais bela.

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