segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Registro de um tempo bom.

Desde a última segunda-feira eu tenho sido atingido por uma daquelas coisas da vida que te fazem querer mudar tudo que tá errado, em si mesmo. E aqui estou eu, bem humorado em plena segunda-feira, com alguma expectativa e mais realismo que nunca na vida.

Esse vai ser um daqueles posts que poderiam ser escritos em um diário, um daqueles raros que chegam nos momentos bons da vida, diferente da maioria, que é inspirada por momentos nem tão bons assim. Enfim, há uma semana que eu resolvi mudar, de novo. Não que eu tenha mudado de fato, ainda sou aquele, mas como disse Nietzsche "O início da mudança se faz com fingimento, é necessário vontade de mudar e insistência em ser algo que não se é." Não com essas exatas palavras, mas o sentido é esse. E eu estou aqui, depois de mais um dia de aula para uma sétima série que não dá a mínima para o esforço de um professor (ou estagiário, como é meu caso) que planeja uma aula para tornar um bando de crianças filhas de uma geração decadente e ignorante que provavelmente nunca serão nada na vida, algo mais que um traficante ou adorador de ignorância.

Isso começou há uma semana e alguns dias, na primeira dessas aulas que preciso dar por conta de uma matéria do meu curso (Letras Port/Ing), quando eu não consegui almoçar de tanta ansiedade e pessimismo que tomou conta de mim. E antes disso tudo, perdi cinco kilos em um mês por toda essa ansiedade ridícula.

Nesse dia a aula foi horrível, me deixei levar pelo comportamento péssimo dos tais alunos e o mau humor era como um altar que eu criava para descansar depois dos meus dias nem tão bons. Acordei no dia seguinte, olhei para o espelho, para aquele rosto cheio de barba e com cabelos cacheados escorrendo pela testa, no fundo desses olhos dados pelos meus tão amados pais, e vi lá no interior disso tudo a vida vazia que isso tudo é. A vida que um dia vai se acabar em nada, eliminando todo sentimentalismo que criei nesses vinte e um anos de humanidade. Pensei em como tudo que sinto não vai servir de nada para ninguém, a não ser para mim e resolvi que minha sobrancelha só iria franzir a si mesma para evitar excesso de luz em dias demasiado claros.

Pronto, mas não foi como qualquer frase do tipo: "Bá, preciso parar de fumar", "Juro que vou ser mais pontual" ou "Semana que vem vou voltar a correr." Não, não. Foi algo que não pode ser tornado verbo, aquilo que você sente de verdade no seu íntimo que vem como um murro no meio do seu rostinho jovem e egoísta, dizendo chega desse você, hora de viver diferente porque você vai se acabar em nada mesmo.

E cá estou, escrevendo tudo isso, o resumo de uma semana bem vivida, que se eternize até que acabe. Enquanto minha gata (animal mesmo) dorme aqui do lado com um ar de: "Faço o que eu quero, na hora que quero, e te arranho se não curtir, babaca.", ouvindo Radiohead, pensando nas coisas do coração e me sentindo bem, muito bem.

Então que se faça eterno até que acabe, que a vida seja bela e o bom humor não me largue mais.

Não, não estou exagerando, ainda sentirei muita tristeza e dor nessa vida, agora registro um momento ótimo, que um dia será interrompido por uma dor que guardarei para mim, talvez expressarei em uma música ou em um poema novo, mas sendo eu mesmo, como tem que ser. E que toda dor sirva para os momentos bons serem mais bem vividos. Que seja como queremos.

P.S.: O mundo precisa de mais pessoas simpáticas, e não confunda simpatia com falsidade, não.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Est

Já não há porquê se prender,
escolher entre o sim e o não,
saber a diferença entre o que
sabemos e escolhemos aqui,
ignorância que já não há, junto
com a ideia que esquecemos
ao vento, ao relento, ao vento

Cada palavra é tão inútil quanto
a vida que te foges sem que tu
rabisque as folhas que te faltam,
outro amor que se envaidece ao
lado do orgulho que se destrói
indo em direção ao desprezo que
nunca deixou seguir, e nunca quis
existir para alguém além de si

Dor de uma vida em vão
espera de cada um que é

Lume que queima sem querer
imagem de todo carinho bom
me mostra o que te faz e o que
amas além do que vês daqui

Como fugir daquilo que dói
isso de criar não é tão fácil
rastros de você ainda aqui
imóveis como o olho que vê
cabe a ti saber ou ser amor
ou ficar ao vento, em espera

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pathos

Me carrega, tristeza, pra longe daqui
até o alto daquele clarão
só pra eu ver uma última vez
o que ficou pra trás

Não me atendes, tristeza
me deixa ficar assim sem querer tanto isso tudo perto
me deixa pensar certo e sentir as linhas que se alongam
mas se não me levas, tristeza, pra onde eu vou olhar?
Para de ser cruel e me despe das tuas ânsias

Eu só queria ficar aqui com o meu coração
em paz de emoções e temores, sem querer saber de ti
Vai tristeza, e leva embora tuas roupas sujas de mim
Vá de um vez antes que eu não suporte mais viver assim
Sem ti em mim.

É o fim

Saí de casa em uma manhã como qualquer outra para ir até a mercearia comprar o pão e o café com que começaria meu dia, que tinha que ser um bom dia. Entrei no local e logo vi que o atendente não tinha começado bem o dele. Tinha os olhos inchados, provavelmente de tanto chorar, e uma expressão daquelas que você não consegue conter quando não está bem. Peguei as minhas coisas e me dirigi a ele para pagar e ir embora. Era um cara com seus vinte e poucos anos, com barba por fazer e olhos cansados.

- Olá, quero um maço de cigarros também, por favor.
- Certo.
- Você não está bem, não é?

Um daquelas perguntas cotidianas que às vezes realmente não devem ser feitas. Mas o "conhecia" há tempos, o que não justifica tamanha intromissão na tristeza alheia, mas conforta. Eu morava havia anos no mesmo lugar e sempre frequentava aquela mercearia, que o tinha como atendente há vários anos também. Então não pude esconder a preocupação egoísta que não passava de mera curiosidade. Qualquer diálogo entre nós jamais havia passado do convencional entre atendente e cliente. Mas havia aquela intimidade que há quando nos acostumamos com a presença de alguém.

- Se eu estou bem? Não sei mais. Normalmente diria que sim, mas não consigo mais acordar e fingir que tudo está bem, e nem responder que sim.
- Mas a vida é assim, dias bons, dias ruins, logo você estará bem de novo, certo?
- Não sei também, não quero mais que os bons tempos passem, que as pessoas que entram na minha vida saiam como estranhos depois de terem feito tanta diferença. Gostaria de estar satisfeito com a vida que levo, mas não, nunca fui satisfeito. Sempre quis mais.

Eu já esperava essa resposta. E nesse momento não me arrependi de ter perguntado. Tantos anos vendo aquela pessoa e jamais ter me aproximado o suficiente pra ver que no fundo éramos tão iguais. Ao menos parecia. Após a resposta seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele resistia. No fundo ele ouvia uma música que deixou tocando no computador da mercearia, era alguma daquelas que ouvimos quando não estamos bem, que atenua nossa tristeza. E dá um conforto bom como se sentíssemos que mais alguém compartilha nosso sentimento. Não identifiquei qual era, estava muito baixo, mas parecia alguma dessas odes modernas à solidão.

- Eu entendo, também nunca fui muito satisfeito com a minha vida. Mas acho que é normal, deveríamos ser gratos por isso. Afinal, se nossos ancestrais tivessem se acomodado e largado mão de suas insatisfações, provavelmente nós não estaríamos aqui conversando, a espécie humana estaria extinta e não teríamos com o que nos preocupar, se não existíssemos... o problema de hoje é querer 'felicidade plena'. A vida teoricamente bem vivida é feita disso, momentos bons. Na maioria do tempo estamos preocupados com nossa falta de dinheiro, de saúde, de qualquer coisa. Mas queremos desesperadamente ser felizes. Isso é um erro, dos grandes. Enfim...
- É... o ruim é que concordo com você. Mas isso não me tira desse buraco em que estou.

Após acabar de falar acho que minhas palavras não foram nada mais que um momento de auto-afirmação, egoísmo imaturo. O cara ali, mal, e eu cuspindo verdades que ele nunca sequer cogitou que eu falasse. E palavras não voltam. Eu queria ajudá-lo, mal sei o porquê, mas queria. Acho que pra eu me sentir melhor como fui condicionado a fazer. Ou apenas para conhecer alguém com os mesmos desesperos que eu. Só mais tarde perceberia que a verdade não ajuda ninguém.

- Não. Mas se você se acalmar e pensar direito vai ver que já que está vivo não vale a pena ficar sofrendo assim, por coisas tão daqui, me entende?
- Entendo, sim. E acha que já não pensei desse jeito? A vida sempre foi tempos bons e tempos ruins, mas ultimamente os bons já não são tão bons, e os ruins são piores do que antes. Mas o que me incomoda mesmo nisso tudo são as pessoas que saem da nossa vida depois de terem sido tão importantes, cansei disso. Não sei nem por quê estou aqui me abrindo pra você, que mal conheço.
- No fundo conhece sim, sou o mesmo que vinha aqui há anos, não mudei muito, não. Ninguém muda muito afinal. Enfim, preciso ir, espero que fique bem, até mais.
- Me desculpe, até.

E assim segui meu dia normal, pensando nos problemas, em algo pra passar o tempo. Li um livro, assisti um filme, fumei um cigarro, pensei e pensei, lembrei da conversa que tive há pouco. Foi uma daquelas que significam algo, tive até um sonho com isso, mas no dia seguinte esqueci.
Na semana seguinte olhei o jornal na terça-feira pela manhã, antes de passar na mercearia começar o dia e quem sabe ter outra daquela conversa que me interessou. Era um jornal local, pequeno e cheio de defeitos, e o maior deles estava na primeira página, em um canto pequeno e quase imperceptível, daqueles que quase ninguém lê mas que eu gosto de bisbilhotar, uma mania estranha. Aparecia escrito no título "Homem de vinte e sete anos é encontrado morto após cair do sétimo andar." Essas notícias sempre mexem com nosso lado humano, por mais que sejam esquecidas horas depois, mais um que se vai. Seguindo a 'mini-reportagem' vi que o indivíduo tinha se jogado de lá após deixar um bilhete para o amigo com quem morava, em despedida: "Obrigado pela presença." Achei tão simplista, imaginei que se um dia me suicidasse iria escrever algo significativo, para que lembrassem de mim, por mais que no fundo eu zombasse da própria ideia de tão ridícula que, de fato, era.

O que eu não esperava enquanto lia isso era que no final descobrisse que o jovem suicida era o cara pacífico que trabalhava na mercearia e tinha aqueles olhos cansados. Meu dia se acabou com um espasmo seco da garganta, naquele choro reprimido por aquele que eu não conheci e que agora tinha ido embora, quem sabe se eu tivesse olhado para aqueles olhos um dia antes. Quem sabe, afinal? Calei minha mente, larguei o jornal e acendi um cigarro, e a tristeza me acompanhou no fim, do meu quinto andar até o chão, sem que o ar me sustentasse em compaixão, pela minha impulsão e minha falta, e é o fim. Mas não o meu, eu estou aqui parado, hipotetizando, já que posso sentir, vou continuar sentindo. Enquanto consigo suportar, que a dor me dilacere.

Logos

Canto para um canto onde o manto
que me cobre desaba e me expõe
Tanto guardo a inocência que chora
a falta de um apego desacreditado

Não é saber o tanto que pranteei
pela dor do meu egoísmo
de só querer os carinhos mudos
de quem sente o mesmo nada que eu

Quem vê palavra em palavra
quem vive aqui e não conhece depois
me esconde dessa mania de doer
acaba com meu orgulho de viver



sábado, 4 de setembro de 2010

Fim dessa parte.

Radiohead, manhã cinza, frio, uma tristeza contida. Só volto aqui quando mudar. Até mais, blog.

domingo, 29 de agosto de 2010

Diálogo - 2

- Bom dia.
- Bom dia por que?
- Porque sim, não discute.
- Ontem eu tive um sonho estranho.
- Me conta.
- Sonhei que a vida era indiferente. E que eu nadava em um mar em que eu não saia do lugar.
- Não sei o que significa isso.
- Mas não foi a primeira vez. E é isso mesmo, na vida nadamos e nadamos e nunca saímos do lugar. Até se cansar e afundar. E cada vez que eu sonho com isso é mais difícil ficar na superfície.
- Você precisa é de ajuda.
- Acho que sim, mas não ia mudar nada. Cada vez que sonho me afundo mais. E ontem derramei a primeira lágrima pela vida. Outras vezes eu até tentava, mas acabava desistindo quando parecia que saia do lugar. Mas quando parava, ainda tava lá, no meio daquele mar enorme, parado. Acho que na próxima vez só afundo e acabou, sempre foi fácil assim.
- É fácil, mas é só um sonho também.
- É, mas fica mais real quanto mais sonho com isso. Às vezes realmente acho que saí do lugar, mas nado, nado, e nada. Por mais que olhe pra como isso é, e às vezes me sinta até feliz.
- Realmente acho que precisa de ajuda.
- Vou acabar indo atrás de ajuda. E esquecendo do mar em que me afundo, não sonhando mais com isso. Mas não vou esquecer daquela lágrima de desespero que saiu dos meus olhos quando achei que não tinha mais volta, aí vou continuar nadando, tem tanto mar pela frente ainda, afinal.
- Mas no fundo você sabe que não vai chegar em lugar nenhum.
-...
-...
- E sabe, nessa última vez eu me esforcei como nunca, nunca antes. Mas no final, acabei afundando mais do que nunca, e tô aqui, sem motivo pra te dar bom dia.
- Sem bom dia então.
- Sem bom dia, até mais.
- Até.

sábado, 28 de agosto de 2010

Diálogo

- Olha aquele cara sentado ali naquela mesa no canto, sozinho.
- O que tem ele?
- Não sei, já vi aquela expressão em algum lugar.
- O que te parece?
- Segurança e medo, é estranho. O jeito com que ele olha tudo em volta.
- Também achei isso. Enche meu copo aqui.
- Tá, mas é mais do que isso. Olha pra você sentado aí, com esse olhar de quem precisa de alguma coisa.
- É, preciso que você encha meu copo, a garrafa tá longe de mim.
- A garrafa? Tem muita coisa longe de você que me faz achar isso.
- O que você tem hoje? Normalmente só fala de mulher, música ou outra coisa qualquer. Pára com isso, hoje é sábado e vim pro bar pra não pensar em nada.
- Hoje? Hoje eu acordei diferente, não sei. Com uma vontade que não tô conseguindo conter.
- Vontade de que?
- Vontade de vontade, só.
- ...
- O que foi? Só acordei querendo fazer alguma coisa a mais que normalmente.
- Isso passa.
- Passa? Então quando você tem vontade só fica esperando passar?
- Ah, não sei. Já disse que vim pra cá pra não pensar. Quando sinto essas vontades venho pro bar e bebo até saber que morrerei de dor de cabeça no dia seguinte. Pronto.
- Você não muda mesmo. Viver desse jeito quando poderia fazer qualquer coisa se soubesse colocar a vontade no lugar certo.
- É, eu não mudo mas nunca vou me decepcionar por não ter feito o que queria fazer. Não quero, afinal.
- Eu quero. Aquele cara ainda tá com aquela cara de segurança desesperada.
- E quem não quer? Todo mundo quer, desde cedo quer, cresce querendo e morre querendo ainda mais, pensando em uma segunda chance. Ó, para de me fazer pensar, minha cabeça só é pra doer amanhã.
- Acha isso?
- Acho, e achar o contrário não ia fazer ser diferente.
- E toda aquela coisa de otimismo de que sempre fala?
- Ah, sabe como é, temos que passar uma boa impressão pra acharem que iremos 'vencer na vida'. A cada dia isso soa mais engraçado. Mas agora tô aqui, com você que é meu amigo e pra quem eu posso falar a verdade sem me preocupar com sua reação.
- É, no fundo eu sei que vai falar tudo isso. Mas às vezes você vem com esse 'otimismo' inconsequente que me confunde.
- Mas é o que te disse. Precisamos disso pra fingir pra esse mundo que continua fingindo e cria pessoas que fingem e que nunca vão mudar porra nenhuma.
- A verdade.
- É, a verdade. Essa desgraçada que não respeita nada.
- Me faz rir. Mas concordo contigo, mas o importante é querer mudar, né?
- Por que me pergunta? Mania de querer confirmação, você não era assim até ontem.
- Mas é que foi hoje que eu acordei com vontade.
- E quando você tá sem vontade?
- Aí eu não penso. Venho pro bar e falo de mulher e música.
- É, e assim vamos. Com vontade, sem vontade. Até o dia em que resolvermos não viver mais. Ou a vida resolver nos largar no meio de uma rua, no meio de um livro ou de uma música.
- De fato.
- Pede a conta, vamos embora. Não tô querendo dor de cabeça amanhã.
- Idem, e o cara com a segurança e o medo ainda tá lá. Com aquela cara de quem nunca teve vontade e de quem ficaria horas ali sentado esperando a vida passar.
- É, mas vamos enquanto ainda temos dias com essas vontades.
- Isso. Ei você, a conta por favor, que estamos de saída.

E os dias se passaram sem qualquer nova escolha, mas cheios de vontade.

Já não tem problema, não

...já não tem problema. Qualquer coisa eu me acabo num lugar qualquer, com gente qualquer e prazeres quaisquer. Só não dá mais pra querer demais, assim. Isso de querer é pra quem se apega pouco, ama de menos. Eu sou um cara qualquer que resolveu parar pra pensar. Agora me apóio na minha janela enquanto fumo esse cigarro e quero saber o que vai ser do amanhã. Mas não, já não tem problema, é tanta coisa que é fácil largar isso e partir pra outra, não me apego a nada mesmo. Por mais que queira de uma maneira impossível. Não dá, não fui criado pra isso. Tô aqui de passagem, pensando nesse monte de clichê nessa linguagem que não tem nada de literatura. Fico por aí, sozinho, esperando pra trazer alguma coisa de boa pra esse mundo que se arrasta. Só quero um "caminho, um motivo, um lugar", uma música que seja boa, uma pessoa atoa e um monte de conversa pra jogar fora e não deixar saudade. "Adeus você, hoje vou pro lado de lá, tô levando tudo de mim, que é pra não ter razão pra chorar". E quero uma música assim, que não fique disfarçando tristeza, querendo ser feliz. Quero palavras que lamentem, que saibam celebrar o que a vida tem de verdade e não queiram inventar mais complicações pra gente correr atrás. É, já não há mais problema mesmo, vou é me fechar no meu mundo e adotar mais algum vício que me mate devagar. Quem sabe procurar algum lugar pra exercitar minha humanidade, onde eu faça mais do que queira e pare de complicar isso tudo. Chega disso, já não tem problema. "Quem se atreve a me dizer", pra onde leva a vida? Não, não, não, pára com isso, senta aí, pega um copo e vamos falar da vida.

sábado, 14 de agosto de 2010

Fotografia

Em um belo dia azul me deparei com uma velha fotografia da infância, em um álbum daqueles que é esquecido no canto de um armário e só é tirado para ser mostrado à visitas quando não se tem mais nada a dizer. Uma velha e nostálgica fotografia de um ser humano frágil e ingênuo, que continha em si toda a felicidade do mundo. Era eu em uma bicicleta que já não habitava minhas memórias, um objeto que provavelmente foi passatempo de muitas tardes despreocupadas, em que nada era mais importante que alguns momentos de felicidade sem culpa.

Naquela foto eu tinha um sorriso sincero no rosto, olhos brilhantes e felizes como toda criança deve ter. Era um cenário verde com minha casa ao fundo e minha mãe sentada em uma cadeira me observando, como era sempre. Minha amada mãe. E meu querido pai registrando aquele momento, que para sempre vai ser um sinal do que fui e do sou destinado a ser.

Me impressiona o quanto uma simples imagem pode se transformar em nostalgia. Aquele sentimento que você não sabe se é bom ou ruim. Tem um pouco de alegria e outro tanto de tristeza. Alegria por ver que a vida se fez boa, ainda mais quando não continha vícios incontroláveis, sentimentos compulsivos e desejos irrealizáveis. Tristeza por ser um tempo que não volta mais, e por despertar em mim todas as qualidades que se foram. O tempo que passa cada vez mais depressa, escapando por entre meus dedos, zombando da minha incapacidade de obter controle. E não se trata de otimismo ou pessimismo. É apenas um realismo frio que torna a vida mais equilibrada. Pois poucas coisas são mais irritantes do que otimismo ou pessimismo exagerados. Ou não sair dos eternos clichês que fazem da vida essa melancolia.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Fluxo de pensamento em versos.

Sou o que fui e o que ainda nem sei.
Sou música, literatura e cinema.
Sou bons amigos, confiança e afeto.
Sou fruto de desapego,
razão de algumas mentiras.

Sou minha verdade e intuição,
um tanto de indecisão
e um tanto a mais de desespero.
Um pouco do que me cerca
e do que levo dentro de mim.

Sou minhas poucas virtudes
e meus excessivos vícios.
O que acho disso tudo
e o que ainda virei a achar.
Sou o que me limita.

Não sou poeta, não sou ódio
nem intolerância.
Não escrevo relevância
nem convicção.
Sou o que vivo.

Mas além de tudo, sou amor
Por cima dos paradoxos
Além do que sou e serei
Ainda anseio muito mais
E algumas vezes esqueço.

Mas além de tudo, sou amor
Amor por mim, pelo que descrevi
Por tudo aquilo que faz de mim "eu"
E em tudo que busco me vejo
Em tudo que erro desejo.

Mas além de tudo, sou amor
Amor demais, de menos
Tudo que não expressei
Todos que deixei passar.
A vergonha que reprimo.

Mas além de tudo, sou amor
Se não houver amor, não há,
Não há...
Não há!
Amor sem propósito, amor por amor.

Se não houvesse amor, não haveria
não viveria,
não poderia,
desistiria...
Se não houvesse amor, o inventaria!

Sou adjetivos, verbos, substantivos,
Descrevo o que posso, sou o que quero
Posso até ser apenas três versos.
Ou quatro.
Mas fico satisfeito em findar em cinco.

- Douglas William Machado.

Inspirado nos versos da composição "Metade" de Oswaldo Montenegro.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos, heterônimo do grande Fernando Pessoa.

Esse merece ser posto e não necessita comentários.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Fluxo de pensamento em prosa.

É o seguinte, tudo tá tão errado, tão gasto, tão cansativo, que não nos resta nada a não ser sentar e esperar melhorar. É isso mesmo, é tanta gente gritando e se revoltando contra os abusos que acontecem por todos os lados que o melhor mesmo que temos a fazer é esperar alguém dar um tiro no deputado, castrar o padre safado e explodir o senado.

Não falo isso por ser conformado, revoltado, preguiçoso, não. Quero dizer que por mim os deputados terão dois meses de folga para ver a seleção ganhar a copa do mundo na África ( http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2010/05/deputados-podem-ter-folga-de-dois-meses-para-assistir-copa-do-mundo.html ), eles merecem, o padre safado também merece "traçar" uma ou outra criançinha de vez em quando ( http://quiosque.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ae.stories/9240 ), afinal, não há Cristo que arranje jeito de acabar com a libido de um ser humano portador de órgãos genitais, ou eu minto?

Acho que o colombiano vendedor do pó que faz a alegria temporária do jovem rico com a vida sem sentido deveria ser crucificado e tornado mártir, pra que todo mundo - outra vez - tornasse a adorar um sujeito que não tinha a mínima ideia do que fazia, mas ainda sim deixava muita gente feliz. Como vocês vêem, eu acho muita coisa, mas ainda poderia achar mais.

É, pessoal, deixemos que a humanidade tome seus rumos, deixemos que o lucro acabe com três quartos dos seres humanos viventes, pois não somos belos, que nada, somos os seres pensantes mais inúteis que já pisaram na terra, toda a nossa geração de canalhas individualistas. É isso que somos, mas me desculpe se discordas de mim, não te respeito não, mas digo que sim, preciso, assim como preciso amar meu próximo, aquele pentelho egoísta que mora no outro lado da rua e espanca sua mãe que faz as necessidades em um saco e não vai viver para ver os próximos fogos, do próximo ano novo que promete vida nova, em um mundo novo, de novo.

Agora não, não pare de gritar pelos quatro cantos o que você faria com aquele padre "aliciador de menores" (olha como somos capazes de deixar as coisas mais bonitas, não?) se pudesse agarrá-lo pelo colarinho e enfiar-lhe umas "boas porradas" "goela abaixo". Adoramos ouvir isso, afinal, temos uma imaginação fértil, só não lembramos que ela não condiz minimamente com a realidade do mundo atual.

Digo isso e não me excluo. Olhe pra mim 23njhmtgxd (desculpem, mas vou deixar aqui registrado o que minha gata quis quando passou por cima do meu teclado, enquanto eu escrevia, explicitando a minha insignificância para com o que me cerca, isso mesmo)... Retomando, olhe para mim, aqui, sentado no conforto do meu aconchegante lar, escrevendo um monte de besteiras, apenas por que elas me vieram à mente não me lembro com o que.

Enfim, não concluo nada, mas deixo aqui registrado esse fluxo de pensamento que nada vai trazer de útil para ninguém, só enfatizo, deixem seus padres se satisfazerem com suas crianças, seus deputados felizes com seu dinheiro, e seu senado em pé com aquele monte de homens idealistas e honestos para consigo mesmo, ou façam alguma coisa, mas não encham meu saco, juro que nunca pensei em votos de castidade, nem em roubar dinheiro público ou em fazer piada com a cara do pobre ferrado que o Brasil tem de monte, isso eu peço com sinceridade, o resto, bom, não posso chamar de mentira.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Análise do poema "Braços" de Cruz e Souza

Olá, como alguns dos que me conhecem sabem, sou um acadêmico do curso de Letras Port/Ing. da Unioeste de Cascavel no Paraná. Fiz o curso por ser um admirador da boa literatura e gostar de escrever, principalmente. No curso, entre outras coisas, nas matérias que envolvem literatura, analisamos alguns poemas; Braços, do simbolista Cruz e Souza foi o primeiro objeto de estudos em uma de nossas matérias no meu, atual, terceiro ano como acadêmico. Achei-o deveras interessante, e, como gostei da análise que fiz e acho que pode ser de alguma valia para alguém que se interesse pelo tema - ou para outro acadêmico em busca de ajuda para algo semelhante - resolvi publicar minha análise aqui, no blog.

Enfim, na sequência está o poema e a análise mencionada:

Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
que prendem, tetanizam como os herpes,
dos delírios na trêmula coorte ...

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas
abertos para o Amor e para a Morte!

Cruz e Souza


O presente poema é um dos mais conhecidos da obra de Cruz e Souza, e um dos mais característicos do movimento Simbolista brasileiro. Um soneto convencional, com métrica e rima características. Rimando no sistema ABBA nos quartetos, e CCD/EED nos tercetos; com acentuação variada nos seus decassílabos. Pretendo com esta breve dissertação, primeiramente analisar as características que fazem destes versos marcos do simbolismo para, em seguida, tentar desmistificar, no meu modo de interpretar – claro, com algumas limitações teóricas necessárias – a essência do poema; o que Souza quis nos dar a entender com seu ‘Braços’.
O autor, em toda sua habilidade semântica e sintática, insere todo o universo simbolista dentro deste poema, que, se visto com olhos desatentos e leigos pode não ter grande importância literária. Mas tamanha obviedade pode não ser despropositada. A linguagem acessível, porém ainda erudita, não sai dos moldes metafísicos e musicais de sua época simbolista, porém abrange muito mais do que palavras esteticamente bem desenvolvidas; nele, encontramos a visão dramática que o autor tinha da existência, e o dualismo que se está no fato de o poema começar com uma aparente idealização de “Braços” e se acabar com a conclusão de que estes são “abertos para o Amor e para a Morte!”, tendo aí as chamadas maiúsculas alegorizantes, que visam a personificação dos substantivos que tiveram suas iniciais transformadas de forma não sintaticamente convencional em maiúsculas; mas que tem significação importantíssima dentro do lirismo aí desenvolvido. Bem como os sinais de paixão que aparecem em forma de reticências em “dos delírios na trêmula coorte...” e no último verso “abertos para o Amor e para a Morte!” que são usados para representar, respectivamente, e possivelmente (ênfase aqui, apenas para não colocar minha interpretação em caráter absoluto), o deixar as possibilidades mais amplas para entendimento das definições apresentadas; e a excitação e angústia produzidas por seres – os “Braços” – que são “abertos para o Amor e para a Morte!” e que o sujeitam da forma descrita ao longo do poema.
Convencionalmente bem organizado, dotado de significação simbólica minuciosamente escolhida, ‘Braços’ é apresentado de forma a nos elevar ao nível metafísico de compreensão do mundo. O que, por si só, já impõe uma relativização significativa nos conceitos a serem afirmados através de análise. Inicialmente, pelo próprio título, somos inseridos em um tema pouco provável, mas (retomando o que já foi dito acima) com potencial para ser muito óbvio: “Braços”. Ao iniciar a leitura dos versos, somos logo atingidos pelo sentimento idealizado e belo que o autor propõe com tanta adjetivação e exaltação daquelas “Brancas opulências”. Suas “Brumais brancuras” já revelam a fixação de Souza pelo cromatismo, pela cor branca, especificamente.
Como não podemos desassociar o autor de sua obra, poderíamos ir além do óbvio e sugerir um possível complexo que o autor sofre. Cresceu em uma sociedade de fins do século XIX, onde o negro pobre – que era sua condição – não era bem visto pelo ‘resto’ da população. Isto pode ser ligado à sua fixação pela cor branca por ter sido visto como uma característica ideal para uma vida desenvolvida, como o era em toda a sociedade ao redor da qual cresceu e da qual, certamente, extraiu grande parte de sua essência; daí a ter se tornado objeto de exaltação é dedutível até pelo caráter trágico da existência que é relacionada à condição de ser negro na obra Broqueis, em que o poema em questão está inserido. Deduz-se isso, com uma análise da vida do autor, que, ao participar de um jornal da época, espalhava idéias abolicionistas. Como o objetivo deste texto não é o de analisar a obra e a vida do autor, fico por aqui em relação a isso. Apenas achei totalmente necessário deixar clara a possibilidade de interpretação que foi mencionada, por entender a associação vida/obra como fundamental em uma análise como a presente.
Os braços, enfatizadamente alvos, são objeto de um caráter dualístico que é uma das características que mais demonstram a essência do poema em questão. “Braços” amados, idealizados, mas capazes de sujeitar à tentação e ao cárcere aqueles que a eles se sujeitam. Nessa linha de raciocínio, o sentimento depreendido por essa confusão; o desejar exagerado denotado nos versos, nos remete ao êxtase absoluto, onde o autor guia nossa compreensão até o lado metafísico de sentir, o inapreensível que demonstra esse sentimento que mesmo intenso e, aparentemente não controlável, é o ápice do sentir, enfim, o êxtase.

Douglas William Machado

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dia de chuva (fictício)

A chuva cai lá fora. Lembro que não gostava muito disso, quando começava a chover era hora de parar de correr e se trancar em casa esperando passar. Mas hoje a chuva vem diferente, parece que está levando tudo embora de novo. Ela não cai mais, cair é ruim, cair dói. Ela desce escrevendo seu caminho no céu, como versos naquele enorme céu azul, e a cada centímetro traz tudo o que estava lá em cima, subindo, para que começe tudo de novo e nada se acabe em perfeição.

Ainda lembro que um dia quando o sol se ergueu tímido, por trás de nuvens e alguma neblina, resolvi que se a chuva viesse ia continuar correndo, não importava se ventasse demais, ninguém estivesse lá ou alguém me mandasse ficar em casa porque eu poderia pegar "um resfriado ou coisa pior" como dizem os antigos. Eu só queria continuar correndo, não muito rápido para não ficar cansado, ia correr devagar para ir mais longe - se ainda quisesse ir longe. Eu estava lá fora, seguindo um caminho imaginário na calçada da frente de casa, ao redor de uma árvore enorme, que eu adorava. Conversava com ela, pedia conselhos sobre se o caminho que eu estava trilhando era seguro, se não atrapalhava de vez em quando falando aquelas bobagens de alguém que tinha apenas onze anos. De vez em quando ela me dava algumas coisas, era uma árvore que fazia maçãs; eu nunca entendia como elas apareciam nos galhos lá em cima, mas eu gostava quando ela deixava uma ali no chão, gostava de ficar ali encostado nela enquanto me saciava com um de seus frutos vermelhos e suculentos.

Nesse dia o sol se escondeu e a chuva desceu, senti as primeiras gotas nas minhas mãos enquanto eu desenhava alguma coisa no chão, que não me lembro o que era, mas a chuva estragou e eu não gostei. Fiz de conta que nada havia acontecido, olhei ao redor e já me chamavam para dentro de casa. Eu não queria ir, queria mesmo era ver como era a chuva ao me expor a ela. Ainda não sei se por teimosia ou curiosidade, mas eu era demasiado jovem, e como hoje não entendo a vida, naquele tempo não entendia a chuva. Queria deixar ela me molhar, para saber se era bom ou ruim, correr e não me distrair com nada. Eu continuei ali, primeiramente andando sem pressa e com aquele frio na barriga causado por aquela sensação de não estar fazendo algo certo; depois correndo em baixo de toda aquela chuva que crescia rápido. pensava se não seria melhor ter ficado em casa, poderia abraçar minha mãe e ela me protegeria daquele barulho alto dos trovões. Mas não, fui longe, apesar do temor, andei para mais longe de casa e estava sozinho. Nunca antes havia me sentido sozinho, não me deixavam, e agora eu sei o porquê. Estava com medo, todo encharcado e começando a sentir um frio desagradável. Mas não estava triste ou apavorado, estava correndo, e poucas coisas eram melhores que isso! Correndo enquanto a chuva caia em mim. E eu era tudo naquele momento. Não pensava em muita coisa, apenas em continuar correndo. Corri até sentir vontade de parar. Não tinha percebido antes, mas corri de olhos fechados, quando parei e os abri estava no meio de uma rua que ficava há seis quadras da minha casa.

Estava ali, sozinho, embaixo da chuva, como nunca havia feito antes, e eu amei aquele sentimento. Foi a primeira sensação de liberdade que tive em minha curta existência. Tinha ouvido falar em 'liberdade' em alguns filmes na televisão, mas não achei que fosse isso. Ninguém havia me falado como era, e eu nunca havia me perguntado. Até porque naquela época não me questionava sobre muita coisa, apenas seguia minha vontade. O que eu queria era certo, o que eu não queria, errado, era simples assim, mas conforme ficamos maiores começamos a complicar as coisas, assim nos sentimos mais importantes. Pelo menos era isso que meu irmão mais velho me dizia quando eu perguntava por que em um país longe daqui as pessoas matavam umas às outras falando de Deus. Com onze anos importante era seguir meu caminho ao redor da árvore e não fazer mal a ela, mas agora eu estava mais longe, experimentando isso que nunca havia imaginado possível sentir: ser livre. Fiquei ali por alguns momentos, até aparecer um carro e eu ver que era meu amado pai, preocupado e confuso de me ver no meio daquela rua deitado no chão olhando a chuva cair despropositadamente. Fiquei feliz por ele aparecer, saber que estava ali, e mais feliz por ter descoberto aquilo que, na época, ainda não tinha esse nome, só mais tarde descobri que alguns chamavam de 'liberdade'. Outros nem se preocupavam em saber, mas eu soube.

Naquele momento eu descobri o que eu queria ser quando crescesse. Queria ser livre. Minha mãe me pedia algumas vezes o que eu faria da vida quando fosse mais velho e eu nunca soube responder. Mas ali eu descobri, quero a liberdade de correr na chuva sozinho e ir mais longe. Fazer o meu caminho onde tiver vontade, e mais, quero que aqueles que amo sejam livres, da maneira como se sentirem assim. Eu me sinto livre do jeito como descrevi. Hoje que cresci complico algumas coisas, faço algumas besteiras mas ainda amo aquilo que sinto, ainda quero ser livre, ter a liberdade que tive naquele dia de chuva, quando eu corria de olhos fechados e só o que importava era que a chuva não parasse tão cedo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Sobre 'amor' e 'paixão'

Eis aí uma das questões mais confusas e mal resolvidas de todos os tempos. Dois termos que para muitos se assemelham, mas que, para mim, são tão opostos mas convivem com tanta harmonia quanto o 'bem' e o 'mal' (analogia perigosa, eu sei).

Um tema 'polêmico', que por si só é tratado longe dos domínios da racionalidade, e é por demais banalizado. E nesse post vou ser o mais espontâneo que conseguir, sem referências, a não ser minha experiência pessoal e literária, se quiser contrapor, sinta-se a vontade, é apenas a minha opinião escrita em sessenta minutos.

Aí vai:

Um dia Camões resolveu escrever um poema, e colocou em versos que 'amor é fogo que arde'. Mas não é bem assim. Pode parecer bonitinho e romantizado, mas fogo e ardor não combinam com amor, e a rima não foi proposital. Irei esclarecer tal afirmação adiante.


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A paixão sim, arde e queima, machuca e nos deixa desorientados, confusos. Quem está apaixonado está sujeito a cometer loucuras, esquecer de si mesmo e se dedicar exclusivamente a um objeto alheio. A paixão é perigosa, instável, irracional demais. É um termo que hesitei escrever sobre, devido ao alto grau de 'cafonice' a que vem sendo sujeita, na mídia principalmente, pois a partir daí toda a massa burra adere e passa a se apaixonar a todo momento, mas não faz a menor ideia do que isto significa. A paixão tem muito mais haver com sexo do que o amor, mas o sexo da forma como evoluiu para ser feito, exclusivamente de forma instintiva, assim como a paixão.

O engraçado é que quando eu penso no termo 'paixão', a imagem que me vem na cabeça é de uma cena de novela mexicana onde aparece um cara com um bigode enorme e uma cara de 'mamãe sou sexy', tipo isso:



Não me agrada nem um pouco ter essa imagem na cabeça, haha, mas esse assunto tem sido tão banalizado, e realmente se tornou tão 'cafona' e antiquado quanto um cara desses olhando para sua filha e falando: "Te quiero puta." (Só pra constar, gosto muito de Rammstein, e a relação que você fez da frase que eu coloquei ali com eles, é a mesma que eu faço de 'paixão' com o cara da foto ali entende? Não é uma questão da realidade em si, mas da relação social entre 'imagem acústica' e 'objeto' .-.) O mundo tem sido banalizado, a música, a cultura, mas vou me ater aos dois conceitos que propus no título.

Concluindo sobre paixão: Paixão é fogo que arde. Irracional, instável e passageira.

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O amor, nesse quando penso, logo me vem a imagem dos frustrados poetas ultra-românticos na mente, que idealizavam tudo, demais, e se acabavam em nada. O que não reflete o que realmente penso sobre isso. Para mim, amor é o que eu sinto por mim mesmo, pelo meus bons pai, mãe e irmão; alguns parentes e alguns amigos muito próximos; As coisas belas no mundo, o amor que sinto pela vida, que tenho vontade de contemplar a todo tempo; O que eu sinto por mim mesmo (e por tudo isso) é calmo, é constante, é racional e jamais vai se acabar; É belo mas não é ingênuo e tolo como visto por aí. É o mais belo! O amor me mantém vivo, requer tempo e quando se estabelece jamais se vai. Sou deveras realista e procuro me manter longe de decepções desnecessárias, a paixão tem o poder de machucar porque é iniciante, a paixão pode evoluir para o amor (agora estou falando de amor homem x mulher, ou homem x homem, mulher x mulher, depende de você, eu fico com o homem x mulher) mas raramente o faz, muito menos nos dias de hoje, onde o imediatismo e a insegurança impossibilitam o cultivo de relações mais próximas e mais reais. Só se vê por aí mulheres 'apaixonadas' por contos de fada procurando um príncipe encantado para viverem felizes para sempre - a moda do momento é toda jovem adolescente procurando um 'Edward' (do Crepúsculo, pra quem não captou) que é vampiro (já que é a moda teen do momento, pff) virgem, cavalheiro e... brilha no sol?! Ok, resta saber se ele não é gay, nada contra, mas ia acabar com a esperanças das jovenzinhas apaixonadas, e de um cara que brilha no sol, espero tudo. E são historinhas como essas, de uma moral completamente falha, que confundem e frustram os sentimentos de gerações que buscam desesperadamente qualquer resquício de sentido que a vida não tem pra dar, e acham que o encontraram em se agarrar a um ideal dos mais tolos: O amor eterno de um ser perfeito. Nãããããão, tá tudo errado, a adolescência de hoje ouve funk carioca e confunde amor com sexo casual. Sexo e amor não tem relação, funcionam bem juntos, claro, mas não se relacionam inicialmente, uma trepada não vai fazer você descobrir o seu amor, eu lamento (o mesmo vale para o acreditar em amor à primeira vista: o que você sente é atração, você pode se envolver com a pessoa e até chegar a amá-la, mas não vai ser culpa do 'amor à primeira vista, pff).

Acho que deu pra pegar a ideia de 'amor' que quero passar, não especifico o amor 'fraterno' ou 'carnal'. Vejo o amor como único para toda situação, o amor que você pode sentir por uma parceira sexual, é o mesmo que vai sentir por um amigo, mas com o amigo você não faz sexo, apenas, e, gente, vamos parar de endeusar o sexo, por favor. Sexo é necessário para a perpetuação da espécie e tem inúmeros benefícios para o corpo e mente, e podemos muito bem fazer sexo com a mesma pessoa por toda uma vida, ou não, é questão de escolha, quem pensar que não nasceu pra ser monogâmico que seja poligâmico. Sei que o ser humano, como animal, não nasceu para a monogamia, principalmente o homem, e isso são apenas fatores biológicos; mas nos desenvolvemos a um ponto, onde existem seres com mais, ou menos, capacidade para a poli ou monogamia, então, é tudo muito relativo, e não tô afim de citar fontes ou referência, se quiser verificar a veracidade das minhas informações, se vire, dica: filosofia, biologia, psicologia, antropologia.

É difícil falar de amor sem falar de sexo quando se trata de dois seres que se 'escolhem' para o ato social denominado 'namoro' (outro termo que evito, pela banalização novamente). Mas isso acontece apenas pela confusão feita entre 'amor' e 'paixão' que tento esclarecer neste post.

Claro, se uma visão como a que apresentei fosse a que vingasse, as coisas provavelmente dariam mais certo, mas os filmes e novelas sobre amor não seriam mais tão bonitinhos e emocionantes... e devem?

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Gosto deste tema, pois é um dos muitos que faz o ser humano parecer ridículo e pequeno, como de fato é. São inúmeros os que fazem besteiras sem fim por aí apenas por não pensar um pouco, por sacrificar a verdade em prol do imediatismo. Paciência, persistência e silêncio, se o homem de hoje começasse a pensar mais nessas três virtudes, 'amor' e 'paixão' poderiam ser temas mais bem resolvidos do que são.

Há muito a ser dito sobre isso ainda, mas fico por aqui e deixo um conselho: Vampiros que brilham no sol não merecem confiança, ok? Abraços (:

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não há Deus

Agora pare de se preocupar e aproveite sua vida.

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É, às vezes as coisas podem ser mais simples.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Eu lírico

"Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava ser um artista. Não penso mais nisso. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças a Deus.
E isto então? Isto não é um livro. Isso é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza... e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre o seu cadáver sujo...
Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música. Não é necessário ter harmônica ou violão. O essencial é querer cantar. Isto é portanto, uma canção. Eu estou cantando."

- MILLER, Henry. Trópico de Câncer Pg. 07-08.

"I walk alone, I was born unknown, I die alone."

Quem me move sou eu

Olho para meu lado direito e vejo você, sorridente, com seus lindos olhos azuis, parada olhando o céu e se sentindo feliz. Olho para meu lado esquerdo e não vejo ninguém, mas há um espelho que reflete o meu rosto que não aprova, e isso eu amo.



Ser
mais que
aquilo que sempre fui.



Me move.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Filosofar com o vazio


A filosofia nos leva a lugar nenhum. O ato de filosofar, imparcial e verdadeiro não encontrará nada senão o vazio absoluto. O caos reinante de forma pura e bela, cruel e indiferente para nossos olhos por demais humanos. Não ser um indivíduo otimista não significa se voltar ao pessimismo e à melancolia deste, a imparcialidade nos leva ao real, à experiência que leva em conta a natureza em sua forma crua e caótica, com padrões despropositados aos quais sempre tentamos dar forma. Hoje é possível perceber que a essência é vazia e depende da existência, e não seria possível ver além. Toda e qualquer hipótese criada para explicar fenômenos além da esfera humana são palpites sem qualquer fundamento ou evidência, que se prostram sob justificativas que não são passíveis de comprovação e confundem mentes que anseiam respostas que jamais existirão.

Não falo de filósofos e teorias, apesar de ser impossível me desvincular destes e do meu histórico de influências, dada a importância que tiveram em minha existência, não para melhor ou pior, mas que me fizeram ver as tolices em que eu me encontrei uma vez imerso, que me faziam confortável e “feliz”, mas que nunca passaram de palpites e não valem a confiança de qualquer homem, mas sim, sua revolta justificada, por ser um limite do potencial do qual todos compartilhamos e podemos explorar ao máximo para criar a essência que nossa existência tornou possível.

“A existência precede a essência”, de fato, mas sempre se buscou sentido onde não há; dar sentido a vida deveria ser o mandamento principal, não busca-lo, pois ele não existe, a vida é vazia e o confronto com o real dói, uma dor quase insuportável com que se aprende a conviver, mas nunca se elimina; a dor testa o verdadeiro caráter, que se diz ‘forte’ ou ‘resistente’ mas estas são definições limitadas por demais para significar o ‘encontrar o vazio’, e conviver com este.

Tudo se formou por ciclos, nascemos vazios, somos moldados, e então nos re-moldamos, ou então seguimos os moldes com que crescemos e nos conformamos. Eu me moldo a cada momento, precisei quebrar os contornos que me faziam “eu” no início para questionar e conviver com o fato de que não há nada que eu possa fazer para confortar a dor da existência real e vazia. Mas aprendi a conviver com ela e hoje a amo; e como amo! Não saberia retornar ao estado primitivo em que me encontrava antes dela. Pessoas como eu “não são as mais confortáveis, mas são as que movem o mundo”, as que aprenderam a amar a eternidade e o questionamento, a abraçar a dor do vazio que vem como uma pancada no meio da cabeça, rachando-a e a fazendo sangrar até não restar uma única gota do sangue poluído pelo conformismo e pelo repugnante conforto encontrado na inverdade; ah, mas como sinto saudades daquele conforto, e como sinto raiva de mim por abrir mão dele; e ainda, sinto ódio de ter sido aquilo e de hoje sentir sua falta.

Odiamos as drogas que nos tornam dependentes (nem todos, falo pelos ‘fortes’) mas como somos dependentes da necessidade! Fugimos covardemente do tédio com o necessitar, nosso vícios não mais equilibram nossas virtudes. Ou somos puritanos demais e esquecemos dos prazeres; ou seres desvirtuados e desequilibrados que se acabam mental e fisicamente em meio a busca por saciar vontades imediatas.

Faço da vida a mais bela, estou vivendo meus melhores momentos, os mais breves que serão mais lembrados. Tenho os melhores amigos e me apego aos melhores vícios, insisto em absorver as melhores virtudes - por vezes falho - e tenho a melhor família. Amo as menores coisas como a mim mesmo, e sinto ódio daquilo que as prejudica. Não quero que minhas dores sejam suas e amo tudo que é belo - seja humano ou não - a grandeza do cosmos, minha incompreensão e tudo que é passível de contemplação; não preciso mais de motivos últimos para buscar prazeres e me apegar às coisas belas da vida. Dou à ela o sentido que me convém; amei a verdade e fiz dela meu principal vício, em sua ausência não há conclusão, e quando se faz presente, mesmo com dor, é a mais bela.