sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sobre altruísmo e egoísmo



Falando de pessoas mentalmente e psicologicamente 'normais', todos nós sem dúvida já praticamos alguma ação - supostamente - altruísta. Aquele dia em que você ajudou o seu vizinho a levar aquelas sacolas de compras pesadas para dentro de casa, aquele momento em que você ajudou a velhinha à atravessar a rua, o dia em que preparou aquele café da manhã especial para sua querida mãe, um simples "bom dia"... entre outras tantas.

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Segundo o 'Wikicionário', a definição de altruísmo é:

al.tru.ís.mo masculino (plural: altruísmos)

  1. Amor desinteressado ao próximo, sem querer nada em troca, literalmente nada.
Quem de nós já parou para questionar o por quê de ser altruísta? E ainda: Será mesmo que não queremos nada em troca?

A resposta destas perguntas pode ser fácil para uns, difícil para outros, e cegamente certa para terceiros.

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Para o padre da Igreja que você freqüenta todo domingo (ou não), a resposta seria definitivamente ( ou, bovinamente - expressão por: 'Carta Capital', ed.512, pag. 22, excelente, haha!) fácil: "Para fazer o bem ao próximo, como ordenou nosso querido mestre Jesus, e irmos para o reino dos céus..."

Espere!

'sem querer nada em troca, literalmente nada.'?

Ficou confuso, não?

Almejando o reino dos céus, os adeptos do altruísmo cristão enganam a si próprios acreditando que fazem o bem ao próximo apenas para... fazer, sem se lembrarem que - mesmo que se torne inconsciente - a única coisa que desejam no fundo de seus corações de cordeiro é ir para o tão aclamado 'reino dos céus'. Para mostrar como tal pensamento é falho, descreverei minha 'teoria' baseando-me em outras teorias relacionadas à vontade e à necessidade de auto-satisfação da qual somos dotados - de quem influenciou pensadores atuais e, sem dúvida, continuará influenciando ao longo dos séculos.

- ID, Ego e Superego:

Segundo Sigmund Freud (1856 - 1939) - grande criador da psicanálise - o ser humano - o instinto humano, lado animal e o que nos 'mantém vivos' - nossa ID - trabalha junto com o ego - nosso lado mais superficial, a soma das emoções, o que decide quanto aceitaremos a realidade que está diante dos nossos olhos, o lado mais suscetível a enganações e negação de si mesmo - e o superego - trabalhado desde os primeiros anos de vida, é o lado em que se encontram as figuras reprimidas pela ID: raiva, desejos "imorais" (ênfase nas aspas) e et cetera. Sintetizando, o superego é o que age em sentido contrário ao ego. Então: Ego é o Eu superficial, ID é instinto, qualquer vontade ou emoção pura do ser, e Superego, onde ficam as emoções (ID) que o ego rejeita, nosso lado reprimido, normalmente por razões sociais.

A ID tende a ser sempre 'verdadeira', buscando o que vai ser mais satisfatório para o ser que constitui. O ego, suscetível a negar ou 'mascarar' os reais desejos da ID, buscando sempre o que lhe é mais cômodo em relação à sociedade, absorvendo os pensamentos que lhe são impostos durante seu período vital e os colocando em prática (no caso, fazendo inquestionáveis os valores supostamente altruístas). E o Superego, que funciona 'armazenando' os desejos que reprimimos para que possamos ser melhor moldados ao meio social em que vivemos.

- Espíritos Livres e Espíritos Cativos:

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900) classifica o ser humano em 'Espiritos Livres' e Espíritos Cativos' (Em Humano, Demasiado Humano de 1878) . Relacionando esta parte com a anterior, pode-se afirmar que os Espíritos Livres seriam aqueles que conseguiriam questionar seu Ego, não se mantendo no comodismo que é imposto a este desde os primeiros anos de sua existência física. Já os Espíritos Cativos, seriam aqueles que apenas aceitariam o que seu Ego lhes impõe, partindo do pressuposto inconsciente da elevação deste, da realização plena de suas vontades mais imediatas, deixando seu Superego apenas sobrecarregado, sem o equilíbrio necessário entre os 'três estados do ser' - ID, ego e superego.

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Como vemos, nosso corpo é equipado de 'programações' (graças à evolução) que fazem com que seja possível vivermos para nós e para os outros. E tudo isso visando, seja consciente ou inconscientemente, a auto-satisfação - imediata ou futura. É, pode bater o pé, chorar, rezar ou fazer macumba, não mudará os fatos, basta ler e questionar, talvez apenas uma séria reflexão seria suficiente para concluir que tudo o que fazemos - eu disse tudo - visa a auto-satisfação. Se não a satisfação no sentido lato (física e psíquica), o que ocorre é a diminuição de algum tipo de sofrimento. Tal fato que difere da satisfação em si apenas por uma questão de conceito - e ainda, se o sofrimento é propositalmente procurado, a realização da "vontade consciente de sofrer" traz satisfação para a mente. Seja imediata ou futura; espiritual ou física; consciente ou inconsciente; A satisfação é a eterna busca do instinto humano.

Tais 'programações', em conjunto com a linha de pensamento dos dois pensadores supracitados, nos permitem fazer a definição de três tipos de indivíduos:

  1. Não questionadoes; constantemente negam sua natureza e tentam impor um altruísmo irreal e utópico a si mesmos, o mais comum;
  2. Em segundo pode-se mencionar o indivíduo que não se cansa de afirmar sua natureza 'egoísta' e narcisista (não estando os dois cem por cento das vezes interligados; apenas citei o caso da patologia de narciso por ser algo que, em conjunto com o egoísmo, ocorre com frequência regular) e que, por vezes, prejudica-se socialmente, acabando com o princípio básico do 'egoísmo racional' (comentarei sobre tal termo adiante), e nesse ponto podemos citar o Ego em tal pessoa, que, ao contrário do que acontece com os indivíduos ditos 'normais', adota um princípio inverso de auto-satisfação, atingindo tal estado apenas quando adquire a sensação de estar em um nível de relação superior ao da pessoa alheia. E isso acontece seja por pensar ser independe de outro ser para se desenvolver, seja por certa imaturidade mental, ou apenas por não atingir nenhum nível imediato de satisfação com o bem-estar do outro - o que é perfeitamente normal em seres como nós; parte de nossa natureza... porém, algo relativamente dispensável... aceitável até chegar ao ponto em que ao invés de não trazer benefícios e/ou malefícios para o indivíduo em questão - o ser demasiadamente egoísta mencionado (o foco da ação) - ele o prejudique socialmente à longo prazo, e é aí que eu chamo determinada característica de 'egoísmo irracional'. Fascinante é o modo como podemos moldar tais características que há alguns milênios eram inerentes a nossa vontade, apenas ERAM.
  3. Por último, podemos definir o ser com o equilíbrio 'necessário'. O indivíduo que pensa, que analisa e que questiona, e - para relacionar com o foco da postagem - que almeja apenas o próprio bem-estar; que vê o que acontece de 'bom' para as pessoas que o cercam como consequência de atos inteligentes; que anseia por sua auto-satisfação baseando-se no princípio da livre-escolha, sempre respeitando os limites a ele impostos para a sua convivência, e o seu crescimento em sociedade - o que é necessário para nossa evolução. como espécie. Um espírito que esteja ciente de sua natureza plenamente egoísta, mas que saiba distinguir o 'egoísmo racional' - aquele que irá contribuir para o seu crescimento a curto e longo prazo sem prejudicar diretamente outro ser humano - do 'egoísmo irracional' - aquele que acaba prejudicando o próprio ser em questão e aqueles que estão ao seu redor, também a curto, e a longo prazo trazendo satisfação purmente imediata e passageira; e outras vezes ainda, danosa. Alguém que saiba equilibrar sua natureza instintiva, e inerente à nós - no caso, o fato de sermos totalmente ligados à nossa vontade inconsciente de auto-satisfação e auto-preservação - e nossa intelectualidade e capacidade mental adquirida ao longo de milênios de evolução para ter a ciência de que não somos capazes de crescer e evoluir sozinhos, de atingirmos a possível harmonia com tudo ao nosso redor apenas gerenciando nosso próprio 'mundinho' de modo adequado, sem ser necessário 'pisar' diretamente em alguém - como eu disse: "diretamente"; visto que estamos constantemente deixando ou sendo deixados para trás por outros que , naturalmente, anseiam o crescimento.
Aqui seria interessante inserir uma citação do grande economista Adam Smith (1723 - 1790, grande ícone do liberalismo econômico) que ilustra perfeitamente o caso citado de 'egoísmo racional' (encontrada em sua obra Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações de 1776) :

"Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade."

Ou seja, alguém que tem conhecimento de que a sociedade nunca será movida por um sentimento social de modo utopicamente harmonioso como, por exemplo, o proposto por Karl Marx (1818 - 1883) - citando o controverso Socialismo Marxista - mas que partindo da vontade de crescimento e auto-satisfação de cada indivíduo intelectualmente desenvolvido, tudo funciona em harmonia e cresce conjuntamente, sem pensamentos cegos, hipócritas e utópicos - com exceções causadas por desequilibrio entre seres com interesses diversos e conflituosos.



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Ao fazer o bem aparentemente altruísta à alguém próximo, ou apenas ao não fazer o mal, você irá se sentir bem, seja por pensamentos sociais previamente inseridos em uma cultura, ou apenas por evitar punições sociais, você irá se sentir bem... mesmo que não seja bem no sentido 'liberação geral de hormônios' da palavra, tendo uma variável na intensidade do 'sentir-se bem'.

Por que nós, pessoas sem patologias mentais "aparentes" (ênfase nas aspas, novamente), não fazemos mal para aqueles que nos cercam e nos dão carinho, amor e benefícios materiais e psíquicos? Apenas porque nos sentimos bem ao vê-los bem... fazemos doações à uma instituição como caridade porque nos sentimos satisfeitos como o bem-estar alheio, a partir do momento em que não nos sentirmos mais bem com o crescimento em conjunto de um todo, o suposto 'altruísmo', afirmado como sendo algo que não exige NADA em troca, irá se tornar extinto. Nem todos estão acostumados com uma visão tão realista do assunto, para alguns pode até soar ignorante e sem sentido, mas na verdade, SEMPRE, foi assim, apenas não tinhamos consciência disso em um tempo onde éramos mal direcionados pelo fanático sentimento religioso, em que tal bem era aplicado apenas como consequência do dom recebido de um 'deus todo-poderoso' para retornar até ele. Ou seja, não tinhamos capacidade para raciocinar até a conclusão a que chegamos nesta postagem e tudo que não tinha explicação, era deus. Fácil não? Fácil, ignoarante e irracional.

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Não podemos dizer - ou melhor, podemos dizer tudo, apenas algumas vezes podemos estar equivocados, sacou? haha - que existe o egoísmo ou o altruísmo como concebidos amplamente na sociedade atual. A medida ideal nestes termos para os acontecimentos que vivenciamos na atualidade seria algo sem dúvida relativo...

Não poderia ser chamado altruísmo o ato de 'Amor desinteressado ao próximo, sem querer nada em troca, literalmente nada', levando em conta, que - nunca fazemos algo que não nos dê auto-satisfação.

O conceito de egoísmo estaria bem coerente com o apresentado pela realidade: 'hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. (Fonte: Wikipedia) É exatamente isso que acontece, sempre colocamos nossos interesses em primeiro lugar, e aí que pode ocorrer uma divisória entre o 'egoísmo racional' e o 'egoísmo irracional' já comentados... tudo se resume no anseio de auto-satisfação, levando em conta que o primeiro beneficia, consciente ou inconscientemente a todos os atingidos pela ação do indíviduo que irá proferir o egoísmo mencionado, e o segundo sendo o que prejudica a ambos ou a apenas um dos indivíduos que estariam em questão quando não sujeitos à tal necessidade.


Enfim, somos todos um bando de egoístas que colocamos tal conceito no fundo de um poço e nunca paramos para o questionar. E isso acontece com a maioria das coisas que passamos a ver como costume de uma cultura. Costumes e tradições devem sim ser questionados e severamente avaliados para que não caiam em contradições e inverdades.


That's all folks. (:

In Scepticismus Veritas.

3 comentários:

Guilherme disse...

Belo texto Eddy!

Agreed 100%.

Essa frase do Adrian Smith é massa, a idéia que ele trata é totalmente coerente e realista.

Em contraposição do pensamento Marxista utópico(e eu diria até anti-humano) que nós vemos nos "comunistas" de hoje em dia.

Guilherme disse...
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Guilherme disse...

Correção ¬¬'

AdAm Smith, droguei aqui xDD